CENAS DA VIDA AMERICANA

CLARA FERREIRA ALVES


Numa sociedade que se pretende autorregulável em muitas coisas, dominada pela apologia do the better and the best, teria necessariamente de se apurar este resíduo no cadinho onde os alquimistas da fortuna buscam o ouro. A política de bem-estar social que os Estados Unidos mantiveram anos a fio sem grandes desfalecimentos ali­mentou vícios e degenerou numa mentalidade traduzida pelo living on welfare.
Todos os meses, os desempregados precipitar-se-iam para receber o que o Estado lhes garantia para sobreviver, e a iniciativa da procura de emprego foi amolecida pela Previdência. As Reaganomics denunciaram os riscos e cor­taram as verbas. Como todas as generalizações apressadas, a medida trouxe consigo a injustiça e aumentou o rol de pobres. O Estado protetor deixou de o ser. Restaria à fa­mília considerar-se o suporte dos membros em desgraça. Nem sempre a estrutura social é tão forte ou se apresenta tão idealmente organizada que a solidariedade intramuros funcione. Nas últimas décadas, a família desagregou-se. O crescente número de divórcios, o abandono conjugal, a indiferença deixaram de fora gente suficiente para se admitir que às vezes ficar sem nada significa isso mesmo, ficar sem nada. Começa-se por perder o emprego, a seguir perde-se a casa, depois os amigos e o resto. A assistência social, mesmo a que parte de entidades privadas, ou da Igreja, não basta para resgatar todos os novos pobres que a crise social, a crise industrial ou a crise agrícola atiraram para os corredores do metro ou o vão das escadas. Algures, algo se rompeu.
E não apenas em Nova Iorque.Em Filadélfia, não muito longe do Sino da Liberdade e dos lugares históricos onde a América dos Founding Fathers escreveu uma originalíssima Constituição que consagra o direito à felicidade arrastam-se dezenas e dezenas de negros, alguns de mão estendida, a maioria mansos como animais domésticos. Em São Francisco, ocupam bancos de jardim, esgueiram-se pelas ruas feias de uma cidade bonita. Qualquer visitante, por mais desatento que esteja, não pode deixar de notar esta gente andrajosa e de olhos vazios, alheia aos risos, a perfumes caros, aos sapatos de verniz que passam a rasar. Não se trata de uma subcultura, um grupo social isolado num gueto, porque os sem-abrigo nem a um gueto pertencem. Não pertencem a ninguém ou a lado algum. Ou talvez pertençam apenas às grandes cidades cujos túneis pontes, passeios e becos são o seu refúgio. E as cidades, sabe-se, são desumanas. No inverno, muitos morrem frio como os pássaros, diz uma assistente social de Nova Iorque. Os velhos, sobretudo os velhos, porque já não têm força para se aquecerem no ronco do metro, nem ouvem o ronco do peito. E os loucos, os que não couberam nos hospitais, e deambulam sem rumo, para a frente e para trás. Em Nova Iorque, o espetáculo é mais impressionante porque em Nova Iorque o espetáculo do luxo nos remete para o abismo da diferença entre dois mundos.
(1986)

(…)

Que os americanos andam muito nervosos já se tinha percebido. Alguém viu americanos por aí, por esta Europa, ultimamente? Raros, raríssimos. E em França muitos menos, et pour cause. O estrago que isto fez nas relações românticas entre o país do Hemingway que escreveu Paris É Uma Festa e a cidade onde Gene Kelly dançava no filme Um Americano em Paris, calcula-se. Woody Allen, contratado pela França para uma campanha de publicidade destinada a reabilitar a imagem da França na América, vai acabar com cinco es­pectadores na sala (dantes tinha dez) e alvo predileto das piadas que costumavam destinar-se a Jerry Lewis (que os americanos gozam só por ser amado pelos franceses). O que se pode dizer disto tudo é que é o fim de uma bela amizade. Todas aquelas Legiões da Honra que a França distribuiu por grandes atores americanos, como, por exemplo, Sylvester Stallone (um símbolo do Rambo contra Rimbaud, 1-0) depois de ter aprovado as leis do protecionismo cultural francês e de ter vilipendiado o cinema de Hollywood, que destino terão? Quem ganhará a medalha destinada ao grande Schwarzenegger? Ou à esplendorosa Goldie Hawn? Triste, infinitamente triste. Leslie Caron não poderá amar Gene Kelly. E se escreve­rem mais umas aventuras destas, em que um rapaz ou uma rapariga de Paris se metem com um rapaz ou uma rapariga! de Nova Iorque, quem as defenderá publicamente do enxovalho? Woody Allen? E que vai acontecer ao filme da filha de Goldie Hawn (uma medalhita para ela, num futuro não garantido?), intitulado Le Divorce, da dupla Merchant-Ivory, que narra, justamente, as aven­turas e desventuras amorosas de umas manas americanas em Paris, se calhar enganadas por uns miseráveis fran­ceses com um peculiar sentido de humor? O divórcio parece consumado.
(2003)

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A histeria trará consigo o desnorte. Desde o dia de Natal, data do atentado, a América esqueceu-se da crise económica, do sistema de saúde, de tudo. A gritaria nos media é tanta que Obama será empurrado para produ­zir afirmações inventadas pela Administração Bush para justificar a situação. Desde o 11 de Setembro europeus e, sobretudo, ingleses, já abortaram e preveniram vários atentados, sem ameaçar países nem justificar guerras pre­ventivas. Cabe aos serviços; secretos e militares destes países conduzir na sombra um trabalho que deve permanecer na sombra e que, desde o 11 de Setembro, tem tido assinaláveis sucessos. Que nunca são mencionados nem devem sê-lo porque a histeria conduz à irracionalidade e à retórica republicana que condensa o pior e o mais pri­mitivo do Partido Republicano, a níveis «palinianos» para quem se lembra da senhora. O mesmo partido que privatizou a guerra e criou task forces de extermínio, depen­dentes de gente como o senhor Erik Prince, o patrão da Blackwater, a empresa de mercenários que resolveu subs­tituir o Estado e os agentes do Estado na «guerra contra o terror» usando métodos terroristas, justamente.
(2010)

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O caso Watergate. Os tanques soviéticos em Praga. A queda do Muro de Berlim. A libertação de Nelson Mandela. A morte de Mao. A retirada de Saigão. A queda do Xá da Pérsia. A invasão do Afeganistão. As duas guerras do Golfo. O massacre de Tiananmen. O 11 de Setembro. A Primavera Árabe. Os últimos 50 anos tiveram inespera­dos momentos. Nenhum teve que ver diretamente com a riqueza das nações.
O dinheiro, ou a marcha do dinheiro, mesmo na fase mais materialista da civilização em que os devotos high- -tech acampam para comprar o último modelo tecno­lógico de si mesmos, um i qualquer, nunca penetrou no recinto sagrado da história como um movimento revolu­cionário autónomo. O capitalismo, sendo a única carpin­taria disponível depois do colapso do comunismo, tratou da vida mantendo a prosperidade ocidental e o low profile que faz dos seus beneficiários, servidores e criminosos uns desconhecidos.
A celebração religiosa dos criadores só começou com Bill Gates e Steve Jobs.
Ninguém estava preparado para as sequelas do crash de Wall Street, da crise do subprime e da dívida soberana. Ninguém estava preparado para ouvir a frase too big too fail e considerar que estava a assistir a um desses momen­tos em que o mundo muda. Os bancos não são protagonis­tas da história. No dia 15 de setembro de 2008, o Lehman Brothers declarou a falência. Nesse dia, o Dow Jones teve uma das suas quedas mais abruptas, igual à provocada pelos ataques do 9/11. No dia 29 de setembro, quando o Congresso chumbou o resgate de Wall Street, o Dow Jones mergulhou no abismo.
O sistema capitalista esboroava-se.
Estava em Nova Iorque nesse dia. Olhei pela televisão o pânico na Bolsa. Fui a correr para Wall Street, assistir à his­tória em direto. A rua era um circo de televisões e jornalis­tas, câmaras e holofotes, manifestações enraivecidas com cartazes que diziam «Morte ao Capitalismo». Banqueiros habituados a deixarem o refúgio dos gabinetes pela porta da frente e embarcarem nas limusinas viram-se obrigados a fugir com as pastas a tapar a cara. Os carros estavam impedidos de circular. Ver dezenas de homens poderosos, masters of the universe, como lhes chamou o escritor Tom Wolfe, aterrorizados pela multidão, expostos à luz crua das televisões e a correr para a primeirra boca do metro, é um espetáculo. É uma espécie de versão pós-moderna da tomada da Bastilha. Naquela tarde, o sistema abanou, Tal como não há almoços grátis, não há espetáculos grátis. A Europa não seria poupada à crise sistémica e aos tremores e choques do terramoto financeiro. Não podia ser. Ao contrário de outros momentos históricos, aquele era indecifrável. A maioria das pessoas não fazia a mínima ideia do que se estava a passar. E quando foi convocada para pagar a conta do resgate da banca, pagou porque os políticos a mandaram pagar. Na Europa, durante mais uns anos, os chefes políticos julgaram-se a salvo da catástrofe, o que demonstra a cegueira e a ignorância.
(2012)

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«YES, WE CAN»

A eleição deste 44.° Presidente, o primeiro afro-americano a ocupar a Casa Branca, foi o resultado da mobilização na rede de milhões de jovens que nunca tinham votado ou entrado na política e o acharam cool. E foi o resultado de um sonho enunciado na frase «Yes, We Can!» Que deu uma canção rap/hip-hop muito cool, «Yes, We Can.» Ao fim de quase oito anos, podemos dizer QUE conseguiu? No dia do Estado da União, o rosto marcado e vincado de Obama era muito diferente do rosto quase juvenil do dia da eleição, 20 de janeiro de 2009. O dia em que a América negra chorou e viu cumprido o sonho de Martin Luther King, no famoso discurso das escadarias do Lincoln Memorial. É um rosto mais fechado, de traços endurecidos, o cabelo quase branco.
Aquele posto pode ser o mais poderoso do mundo mas é também o mais difícil do mundo. Seinfeld, no talk show de Stephen Colbert, disse que o Presidente é como um homem com um grande cérebro que foi capturado por extraterrestres que de vez em quando o levam ao seu planeta, a Casa Branca, para resolver os problemas  do mundo. E quando ele começa a resolver esses problemas, os extraterrestres discordam e dizem que não. Os come­diantes têm sempre as melhores definições. É isto o poder presidencial e é natural que a carreira política e a biografia pessoal não tivessem preparado Obama para os embates do cargo. Para a prisão do cargo. A responsabilidade e a in­certeza são parte do território e no último mandato, quan­do o Presidente se liberta dos dígitos e das sondagens, tem de ocupar-se do legado histórico. Daquilo que fez e não fez. Daquilo que prometeu e daquilo que realizou.
(2016)

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Ninguém sabe o que irá acontecer, embora se perceba que a situação tende a piorar. A política anémica da fraqueza europeia, que os americanos desprezam e ignoram, compõe o quadro trágico. O terrorismo em território americano não é uma ameaça como é na Europa. Desde o 11 de Setembro, os sistemas de vigilância e controlo aumentaram. E é justamente a perseguição e caça do autor material e moral do 11 de Setembro, Osama bin Laden, um dos triunfos de Barack Obama. O homem que era acusado de não ter estofo para comandar militares acabou por ser um decisor com mão de ferro. A política dos drones foi dele, e a decisão de matar Osama foi dele. Obama caçou Osama. Esse triunfo ninguém lhe tira, apesar de muita água ter corrido sob as pontes e destruído as pontes depois do dia em que os americanos dançaram nas ruas com a aventura dos Seals em Abbottabad. Desta história nunca se saberá toda a verdade. Apesar de ter começado a sua vida presidencial por desclassificar documentos de antecessores, teremos de esperar uns anos para consultar documentos secretos dos anos Obama.
(2016)

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O que assusta em Trump não são as políticas de Trump. O que assusta é a crueldade, traço evidente para quem viu os episódios de O Aprendiz ou os primeiros de­bates contra os republicanos, quando ele não esperava ga­nhar. Quando descobriu uma aberta em Jeb Bush nunca mais o largou, como um mastim esfomeado a quem atira­ram um bife. Vemos a crueldade dentro da auréola branca dos olhos pequeninos, no fungar enervado, na crispação furiosa do desapontamento. E vemo-la no triunfo, quando ela se torna corrupção e prepotência, vingança e soberba. Vemo-la quando ele sai do carro e avança para Obama dei­xando para trás a mulher, sem lhe abrir a porta ou espe­rar por ela. Caminha sempre na frente da família, a filha favorita ao lado, o filho pequeno na cauda. Vemo-la nas entrevistas e nas poses. Nos filmes e nos livros sobre ele, pagos ou não por ele. Vemo-la no dedinho autocrático, o bracinho biónico deste dr. Strangelove. Vemo-la agora, rigosíssima, nestas ordens executivas feitas por medida. E vemo-la, suprema, no olhar maléfico do seu mentor, Steve Bannon, o novo senhor da Segurança Nacional americana. Bannon, o «leninista», o «Darth Vader» (palavras dele) que gosta de soluções finais para os problemas nacionais e internacionais. O amante da força bruta e da guerra total, o homem que quer destruir o sistema. O ditador dos media. O Goebbels desta ópera bufa. Vemos a crueldade claramente vista. Podemos escolher não ver, como fazem Paul Ryan e Theresa May com olhos murchos. Podem sempre não ver, mas custa-nos a alma.
(2017)


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