LENDAS TRADICIONAIS PORTUGUESAS 

Ed. Guerra & Paz

 

Na serra da Peneda, onde hoje fica a freguesia de Gavieira, pertencente ao concelho de Arcos de Val- devez, conta-se que, em tempos, existiu uma grande propriedade onde vivia Leonor, uma jovem bela e rica. Leonor era órfã de mãe e pai e, por isso, estava sob a tutela de um tio fidalgo, o poderoso e cruel D. Bernardo.

A jovem conheceu, certo dia, um belo e talentoso fidalgo, D. Afonso, igualmente novo, mas arruinado. Apaixonaram-se, todavia, Leonor não teve coragem de o assumir publicamente, pois estava certa de que o seu tio faria de tudo para os separar. Por isso, amavam-se em silêncio. Viviam o seu secreto amor, tendo apenas por confidente e testemunha uma velha aia, Marta, que ajudava os jovens a encontrarem-se, mesmo que por breves momentos.

Num dia em que D. Afonso não era esperado, o jovem fidalgo procurou a velha aia. Marta assustou-se ao vê-lo:

- Senhor, o que faz aqui? Ainda ontem aqui esteve e apa­rece hoje de novo?! Ainda por cima de surpresa! Não faça isso, senhor. Pode ser muito perigoso!

- Marta, preciso que me jure a sua lealdade...´

 (...)

 Ao chegar a casa, D. Bernardo perguntou a Marta o que fazia no jardim.

- Fui ver as plantas... - respondeu, hesitante, a velha aia.

- Mentirosa! - trovejou D. Bernardo. - Pensas que me enga­nas? Eu vi um vulto a afastar-se! Quem era?

- Era... era o meu sobrinho.

- O teu sobrinho? Eu não te proibi de o receberes em minha casa? - vociferou o tio de Leonor. - O que queria ele? O que me queres esconder? Vá, responde!

Sem coragem para enfrentar D. Bernardo, Marta entregou a carta de D. Afonso a Leonor em silêncio. Leonor leu-a apressadamente e saltou de alegria ...

(...)

 Correram, então, para o local de onde Marta os vigiava. Mas, quando lá chegaram, não a encontraram. Com assombro, em vez da aia viram um penedo com a forma do seu rosto.

-  Meu Deus, Afonso... a Marta transformou-se em pedra! - disse Leonor, assustada. A velha aia traíra-os. E, virando-se para o seu amor: - Corremos perigo! Foge! Eu suportarei a ira do meu tio.

-  Não, não parto sem ti. O meu cavalo está mesmo ali. Vem! Foge comigo! Não tempo a perder!

 (...)

 Um dia, decidiram voltar à serra da Peneda, ao local onde a velha aia ficara a observá-los, para verem, à luz do dia, se Marta se teria transformado mesmo em pedra. Talvez tivesse sido ape­nas uma alucinação.

 (...)

 Quando chegaram à serra, viram um enorme penedo que parecia debruçar-se sobre o povoado. Era o mesmo que tinham visto antes e que, pela sua forma, tinha ficado conhecido como «cabeça da velha».

Não muito longe do penedo, Leonor terá mandado cons­truir uma pequena capela, em acção de graças por ela e D. Afonso se terem salvado. Pelo menos, é o que reza a lenda.

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