E se eu fosse Deus ?

Fernando Correia


Lembro-me de que Henrique começou por perguntar a si próprio, ou à Natureza: «E se eu fosse Deus?..,»
Não obteve uma resposta concreta, nem a obterá pela via normal. Eventualmente, colocarão em evidência uma espécie de insanidade mental, reflectida nas suas palavras e nos seus pensamentos. Em alternativa, voltar-lhe-ão as costas, rindo à socapa ou às escâncaras.
Mas é mais do que provável que a resposta lhe chegue de uma outra maneira e que ele a entenda.
«E se eu fosse Deus?...» Afinal é isto o que ele quer saber. É esta a sua grande dúvida. Mas não diz «se eu for». Diz « se eu fosse». E este tempo verbal faz toda a diferença.
Henrique sabe de antemão que não pode ser Deus, mas sabe o que faria e como actuaria se fosse Deus! E é isto que se torna, realmente, importante; é isto que faz sentido; é isto que todo o ser humano devia pensar, para encontrar uma resposta transformadora. Mas não. Infelizmente, o que acontece é haver cada vez mais egoísmo, má formação moral, ingratidão e uma espécie de «salve-se quem puder» que não ajuda a humanidade, nem contribui para a nossa própria evolução moral e cívica.

(...)

A figura de Henrique, o seu entendimento da vida, o seu modo de estar, a forma como encara o dia-a-dia, a importância que dá ao mundo que o rodeia, a sua fé na Natureza, a sua entrega aos ideais primários da construção da própria vida, fizeram dele a figura cen­tral deste encontro que começou por ser ocasional, mas que agora representa uma ansiedade permanente para ambos e uma necessidade absoluta para mim.
Henrique é uma personagem estranha. E sendo um sem-abrigo por opção, relativamente à forma como a sua vida se desenvolveu, a revolta pessoal e a injustiça que o ser humano se encarrega de pôr em prática, sem dó, sem piedade e com uma enorme dose de egoísmo, não deixa de ser, paralelamente, um ser humano que acredita na bondade do Universo e na perfeição da vida, tendo em conta a sua construção e o seu surgimento em nós.
Afinal, donde viemos e para onde vamos? O que somos? O que queremos?

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Pois muito bem, o Zé Maria deu conta que um rapaz dormia na rua, num recanto perto do seu espaço. Falou com ele e percebeu que o emprego que o jovem, sem família, tinha arranjado não lhe dava sequer para alugar um quarto. Por isso dormia na rua e lavava-se no chafariz onde o Zé ia buscar água. Sabe o que ele fez? Arranjou uns madeiros e construiu, ao lado do seu casebre, um outro, para o rapaz não dormir ao relento. É casa pobre. É casa de quase nada. Mas lá lhe ofere­ceram na vizinhança uns cobertores e umas colchas, que ser­viram para tapar as brechas na madeira e para enrolar o corpo, protegendo-o do frio. A isto chama-se solidariedade e frater­nidade. É como se fossem pai e filho. E vão os dois beber um cafezinho e esfregar as mãos para as aquecer no café da equina, onde muitas vezes lhes oferecem alguma coisa para os dois comerem. Sei, igualmente, que há dias o dono do café lhes deu uma daquelas geladeiras de praia para tentarem con­servar os alimentos mais tempo. Abençoado Zé Maria que, não tendo quase nada, ainda teve, dentro dele, o amor suficiente para repartir o seu tão pouco com alguém que ainda tinha menos do que ele.

(...)

Lembrei-me de Platão, de Sócrates, de Cebes... Recordei diálogos importantes que ficaram para sempre na minha memória e dentro de mim, como se fossem, eles também, a minha razão de ser.
Não esqueço que Platão dizia normalmente, e com a naturalidade de quem sabe das coisas, que há, na verdade, um contrário de vida que se chama morte e que a alma, enquanto componente do ser humano, não admite a morte, ou seja, a alma é imortal.
Mas a sua explicação ia mais longe e era mais dirigida aos que não acreditavam na «sua» filosofia:
«Se o imortal é indestrutível, a alma não pode ser des­truída quando a morte se aproxima. Diante disso, a alma não aceitará a morte, nem ficará morta, da mesma forma que nem o três será par, nem o ímpar será par, nem o calor do fogo será frio e assim por diante.»
Estes pensamentos eram uma espécie de alívio e de justi­ficação. De resto, Platão e Sócrates defendiam a mesma teoria: «O que é imortal é indestrutível e a alma, tendo sido demonstrado que é indestrutível, não é apenas imortal, como também é indestrutível.»
Confesso que esta teoria da alma indestrutível obrigou-me a ter uma conversa mais aprofundada com Henrique, também com o sentido de lhe afugentar culpas e o ajudar a ser capaz de sustentar a sua tese de poderia ser Deus. Nem que fosse para equilibrar a sua mente e dar justificação a ideias dificilmente sustentáveis.

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Na Gare do Oriente, em Santa Apolónia, no Rossio, até em certas estações de metro que ficam abertas para servirem de protecção e abrigo, percebe-se a razão de ser da solidarie­dade e pensa-se que os municípios ou o próprio governo central deviam fazer mais pelos que caíram na rua, por motivos vários.
Mas a verdade é que vivem na rua. A verdade é que sofrem. A verdade é que existem, não sendo possível ignorá-los.
Fui com os VSA (Voluntários Sem Abrigo), a uma semana do Natal, celebrar a consoada com os sem-abrigo da Gare do Oriente.
Uma jovem voluntária vestiu-se de pai natal, ou de mãe natal.
Tinham sido pedidas caixas de cartão (podiam até ser caixas de sapatos vazias), que foram, depois, recheadas de peque­nas prendas e de objectos que serviriam para acudir a necessidades básicas.
Faziam aquilo todos os anos. As caixas continham pastas de dentes, sabonetes, escovas, meias, cuecas, raspadinhas, luvas, cachecóis, chocolates, bolachas, sei lá que mais. E cada um daqueles sem-abrigo tinha o seu presente, que era guardado religiosamente.
A emoção atingiu o auge quando surgiu, por um das portas de acesso ao parque de estacionamento, a mãe natal, transportando o seu enorme saco de prendas, seguida pelo seu séquito de «adjuntos», também vestidos de pai natal.
Que alegria! Que festa! Que lágrimas! Um afecto, um cari­nho, uma palavra, um beijo... Seria preciso pedir mais?
Henrique chamou a minha atenção para a forma como os sem-abrigo abriam os seus presentes, se fiam para eles, se enfeitavam com eles, se babavam no gozo feliz do inespe­rado.
Pensei, nesse momento, em quantos ministros deveriam estar ali a assistir àquele gesto de dádiva solidária, àquela manifestação de amor, carinho e respeito pelos mais despro­tegidos.
Depois das prendas, a equipa de voluntários pôs as mesas e encheu-as de eomida boa.
Nada faltou. Houve bacalhau com todos, para todos. Houve caldo-verde com chouriço. Carne de porco assada com batatinhas loiras. Rabanadas, bolo-rei, muita fruta. E café, pois claro.
Era noite de paz. Era noite de amor.
Também uma noite de lágrimas. Para muitos sem-abrigo, aquela era a única família que tinham.
Mas foi, igualmente, a noite de pensar na solução para aqueles (e outros) seres humanos que a cidade esconde no seu interior, no mais profundo da sua «alma», nas suas entranhas estranhas, sem que olhares profanos adulterem o significado do que é viver por nada, para nada e sem nada.
Percebi que Henrique tinha os olhos molhados e, quando alguém daquela organização de gente boa (como há outras na cidade) nos deu um prato de rabanadas, ele não aguentou a emoção e respondeu à necessidade, tal como eu, de as mas­tigar com lágrimas, talvez do presente, mas certamente do pas­sado, perdido na imensidão da injustiça social.

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