UMA ESPERANÇA MAIS FORTE DO QUE O MAR
Melissa Fleming
Nessa altura, não havia no mundo mais nada que Doaa
temesse, pois tinha a família sempre presente para a proteger. Aos 6 anos, Doaa
não se conseguia lembrar de um único momento em que tivesse estado sozinha.
Vivia com os pais e cinco irmãs num quarto da casa de dois andares do avô,
enquanto os três irmãos do pai e respetivas famílias ocupavam o resto da casa.
Todos os momentos da vida de Doaa estavam repletos de familiares: dormia lado a
lado com as irmãs e os momentos das refeições eram partilhados com todos entre
animadas conversas. A família Al Zamel vivia em Daraa, a maior cidade do
sudoeste da Síria, a poucos quilómetros da fronteira com a Jordânia e a sul de
Damasco, que ficava a cerca de duas horas de carro. Daraa fica num planalto
vulcânico de solo rico e vermelho. Em 2001, quando Doaa tinha 6 anos, a cidade
era famosa pela grande quantidade de frutos e legumes que a terra produzia -
romãs, figos, maçãs, azeitonas, tomates. Até se dizia que o que Daraa produzia
chegava para alimentar toda a Síria. Porém, alguns anos mais tarde, em 2007, o
país foi assolado por uma seca devastadora que durou três anos e obrigou muitos
agricultores a abandonarem os seus
campos de cultivo e a mudarem-se com as famílias para cidades como Daraa em
busca de trabalho. Alguns especialistas acreditam que essa deslocação em massa
deu origem a um grande descontentamento que, em 2011, se avolumou e se transformou
numa gigantesca onda de protestos que precipitaria a sublevação armada que
viria a destruir a vida de Doaa.
Mas em
2001, quando Doaa não passava de uma criança, Daraa era um lugar pacífico, onde
as pessoas viviam as suas vidas com uma esperança renovada no futuro do país. Bashar al-Assad acabara de suceder
ao pai, o despótico Hafez al-Assad,
na presidência da Síria. A população síria tinha esperança de que o país viesse
a conhecer melhores dias, acreditando, no início, que o jovem presidente poria
fim às políticas repressivas do pai. Bashar
al-Assad e a sua encantadora mulher, Asma, tinham sido
educados em Inglaterra e o seu casamento era visto como uma fusão, pois ele era
oriundo do ramo islâmico minoritário aluíta e ela pertencia à maioria sunita,
tal como a família de Doaa. A sua política era secular e havia uma esperança
generalizada, principalmente entre a elite culta de Damasco, de que, sob a sua
liderança, o estado de emergência, que durara quarenta e oito anos e que o pai
herdara e mantivera para esmagar os dissidentes, fosse revogado e fossem
levantadas as restrições à liberdade.
…
Lá fora o céu escurecia e Doaa foi acender um
candeeiro para iluminar a sala, mas nada aconteceu.
Tentou acender outros dois candeeiros sem sucesso até que percebeu que tinha
havido um corte de energia. Hanaa foi à cozinha para fazer chá, mas não
conseguiu tirar mais do que algumas gotas de água da torneira; a água também
tinha sido cortada. Confusa, voltou para a sala e sentou Hamudi no colo
enquanto Doaa, Saja e Nawara, apreensivas, viam pela janela os soldados
encostados aos tanques estacionados mesmo em frente à porta, como se preparados
para ficarem ali muito tempo. A família percebeu rapidamente que aquela
situação podia prolongar-se por mais tempo do que inicialmente haviam pensado.
Shokri ligou o
rádio de pilhas e sintonizou-o nas notícias para saber mais informações.
Daraa está sitiada, anunciou o locutor. O exército foi enviado para erradicar os terroristas que estão a tentar
destruir o país.
Uma nuvem negra
baixou sobre a família ao interiorizarem aquela informação e imaginarem como
tal situação iria afectar o seu quotidiano.
Mais tarde nessa
mesma noite, quando a família já dormia, Doaa estava deitada, acordada, incapaz
de ignorar a sensação de que algo terrível estava prestes a acontecer. E assim
ficou, muito quieta, a ouvir a respiração profunda de Saja e de Nawara, que dormiam
ao seu lado, e as gargalhadas e os gritos dos soldados, que ecoavam lá fora.
…
Os homens ficaram espantados. Esta jovem de aspeto tão frágil tinha não só
sobrevivido, quando muitos outros tinham morrido, mas tinha ainda conseguido
manter vivas duas crianças. Dmytro Zbitnyev, um dos oficiais, retirou a
primeira criança dos braços de Doaa e depois a segunda, e entregou-as
cuidadosamente aos colegas da tripulação, que as embrulharam em cobertores térmicos e
aconchegaram nos braços aquelas vidas tão preciosas no meio de tanta morte.
Por fim, Dmytro baixou-se para içar Doaa para dentro do barco, mas, mais uma
vez, ela resistiu.
Gosto tanto
destas meninas. Por favor, que elas fiquem bem, pensou Doaa ao
imaginar o sorriso meigo de Malak com os seus dois dentinhos. Finalmente estão
a salvo e já não tenho de lutar mais por elas. Agora posso ir para junto do
Bassem. Sozinha, pela primeira vez em vários dias, e com uma sensação de alívio do
dever cumprido, Doaa dobrou os joelhos para dar um impulso e afastar-se do
barco. Quero voltar para junto do Bassem e morrer com ele, pensou Doaa sem
saber se teria pensado em voz alta.
Nesse momento,
um dos membros da tripulação conseguiu agarrar-lhe a perna e puxá-la para a
poder içar para um lugar quente dentro do barco. Doaa estava a delirar, de sede
e de exaustão, e tinha começado a perder a noção do que era real ou imaginário.
Eu não consigo viver sem ele, pensava. Mas, embora resignada a morrer no mar com Bassem, estava
demasiado fraca para resistir aos homens que tentavam salvá-la. Apesar da sua
total exaustão Dmytro conseguiu içá-la facilmente para dentro do barco,
deitando-a cuidadosamente no chão. Foi imediatamente embrulhada num cobertor e
colocaram-lhe uma esponja húmida nos lábios para ir absorvendo
algum líquido. Ao saborear a água doce, Doaa sentiu mais sede do que em
todos os dias que passara no mar, à deriva. Fez sinal a pedir mais e tentou
estender a mão para a garrafa, mas não foi capaz de se mexer.