O HOMEM QUE NÃO TINHA IDADE
Fernando Correia
João tinha completado oitenta e três anos e sentia-se
um homem de alma cheia e de coragem viril na existência que seus pais lhe
ofereceram, sem saber como, sem ter pedido, mas ciente de que tudo deveria
fazer para merecer a benesse de viver, sentindo a força da terra dentro de si
e sabendo que o sentido único da esperança continuava nele como no primeiro dia
em que se conheceu ou no dia em que, pela primeira vez, percebeu que existia. O
primeiro dia da memória.
Estava um pouco atordoado.
Talvez mesmo sonolento. Como se dentro de si houvesse uma ausência de valores
e, subitamente, tivesse tropeçado nos dias e rolado pela escada da
incompreensão, do desassossego e da injustiça. A escada que conduz à noite sem fim, ao
eternamente só, a humilhação de saber que os filhos tinham acabado de o
depositar naquele lar de idosos, considerando-o incapaz, objecto sem valor,
carne engelhada e osso roído, sem mente, sem valor, sem nada.
João já não prestava, diziam os
filhos. Mas não dizia ele.
João estava próximo de acabar
para a vida, pensavam os filhos. Mas não pensava ele.
E este é o grande drama dos
velhos, capazes e autênticos, que os filhos, ou alguém da família, transformam
em incapazes, em coisas, em números de estatística e deitam fora, com a maior
tranquilidade, argumentando que a vida é «assim mesmo», é a ordem natural das
coisas.
Por estarem reformados? Por
terem dado muito do dinheiro que ganharam aos filhos? Por terem criado, educado,
instruído esses mesmos filhos que, agora, os enjeitam? Por serem incómodos em
casa? Por ser um alívio projectá-los naquela nova realidade do «lar» que tem
belíssimas condições, com assistência médica, enfermagem, boa alimentação,
jardim, localização que permite visitas temporárias, higiene, conforto,
televisão e grades nas janelas?
Havia, por ali, gente velha e gente com doenças múltiplas, sobretudo com demências de vária ordem e doenças terminais...
Mas João era um velho que estava novo. E que estava
vivo. Que era, ainda, natureza. Que sabia o que queria. Que pensava, sofria e
amava.
(…)
A vida com Joana deu-lhe dois filhos (um rapaz e uma rapariga) e
um amor prolongado que ainda cimentou mais o desgosto de agora e lhe provocou
a ideia de que jamais se separariam, o que é natural, essencialmente porque se
tratava de alguém que procurava estabilidade emocional e uma definição de
vida.
Os cinquenta anos de idade, normalmente, constituem
uma barreira psicológica e correspondem, sempre, a uma fase de transição, mais
aguda e notória no homem do que na mulher que, curiosamente, a sente mais
tarde, talvez em resultado da chegada da menopausa. Para o homem, as
influências são outras e têm que ver com factores diversos, acima dos quais se
situam as noções de virilidade e domínio, próprias dos machos.
As pessoas fingem não acreditar e tentam passar pelos
cinquenta anos como se nada houvesse, mas o muro está lá e é preciso saber
ultrapassá-lo com inteligência, bom senso e equilíbrio.
A crise nos jornais agudizou-se, mas surgiram outras
saídas, entre as quais a rádio e (ainda mais) a televisão apresentaram-se como
alternativas, ou complementos, a ter em conta.
A concorrência era grande, mas a experiência e a qualidade
ainda contavam para o momento em que fosse possível tomar uma opção ou
acrescentar uma outra saída à sua carreira como jornalista sénior.
Por isso, João não deixou o jornal, mas conseguiu um part-time num canal de televisão que lhe deu, pelo menos, a certeza de que alguma
coisa iria mudar na sua vida.
Para Joana, foi a tranquilidade de uma segurança para
si e para os seus filhos, numa fase em que era preciso dar-lhes apoio, a fim de
conseguirem atingir o objectivo maior de se formarem e de partirem para a vida
de peito aberto, mas com a segurança de poder contar com os pais em qualquer
situação de emergência.
Foi nessa fase que o filho mais velho, do primeiro
casamento, adoeceu com gravidade e, embora já tivesse a sua vida organizada e
encaminhada em todos os termos, foi preciso o pai acudir não só com a sua
presença, como também com o dinheiro proveniente das suas economias, para que
lhe fossem prestados todos os cuidados médicos e se salvasse a sua vida.
(…)
João
pernoitou, naturalmente, na casa de saúde-lar de idosos que os filhos lhe
tinham destinado.
Ficou
naquele local, sobretudo, para dar corpo a algo que lhe tinha vindo à razão e
que passava por se ausentar dali, ausentando-se, também, de todos os seus
compromissos para com a vida comum, tradicional, aquela que os seus filhos
queriam que ele levasse durante o resto dos seus dias.
Só que os dias restantes não são contabilizados pelo
tempo, nem constituem algo que se possa manipular, prever, contabilizar.
O ser humano nasce sem saber porquê e, apenas, quando
tem de ser. Morre exactamente da mesma maneira, isto é, sem que o dia lhe seja
previamente comunicado, muito menos que o possa prever à distância do tempo.
Morre quando tem de ser.
Não
tinha Joana, o seu amor maior, e não tinha filhos que quisessem ser pais para
ele, se a tanto chegasse, ou se fosse necessário tanto.
Porquê?
Porque,
para alguns, a vida é mesmo assim.
O povo
diz, com razão, filho és, pai serás. E crias os teus filhos para que um dia eles te possam ajudar quando precisares,
principalmente quando a idade se prolongar e as carências físicas forem maiores.
Não era
o caso.
O que
queria então?
Sabendo
que, certamente, o tempo que lhe sobrava não seria muito, queria, acima de
tudo, reencontrar-se com a vida, obtendo dela tudo o que ao ser humano, normalmente,
não importa.
Queria
sentir a Natureza.
Queria
perceber a verdade das coisas.
Queria
ter a noção exacta de qual é a idade da vida de cada um.
Queria
perceber o que era a vida global, a vida de todas as coisas.
(…)
Levantou-se cedo, sem ter dormido muito na
confusa e misteriosa noite em que os filhos o tinham depositado naquele local,
como se fosse lixo, como se já não prestasse para nada, a coberto de uma capa
de qualidade que alguns destes depósitos de idosos têm.
São assim
para descanso moral de quem se livra da incomodidade de um velho reformado que
dá muito trabalho a cuidar, a tratar das suas roupas, na limpeza da casa, na
alimentação, nas doenças, na decadência física, na inactividade programada.
João estava a mais. E sabia-o.
Não para
ou por ele, mas sim pela atitude dos filhos que criara com tanto amor!... Até a
Isabel!... Embora vivesse fora do País e, por essa razão, teria menos voz
activa
(…)
Foi no meio de um ensopado de borrego que João conheceu o Padre Albino.
Havia uma pequena orada onde quase já não ia povo, porque não havia povo. O padre andava de aldeia em lugar a espalhar a palavra de Deus, como ele dizia, movido pela fé da criação. António apresentou a João o Padre Albino.
João tinha
entrado uma única vez numa igreja. Foi na altura do seu primeiro casamento. Não
tinha saudades. Nem do casamento, nem da Igreja.
Cumprimentou
o padre, enquanto ser humano, e permitiu que a conversa seguisse o rumo do doente que indo ao médico não lhe deve
esconder nada, para que a cura seja rápida.
De resto,
António forçou um pouco a nota, por julgar perceber que o seu amigo João
necessitava de um curador de almas.
Disse o Padre
Albino:
- Já sei que
o temos entre nós por escolha própria, por decisão pessoal, por vontade de Deus
em mostrar-lhe o caminho mais adequado à vida que lhe resta.
João
mastigava o ensopado saboroso e ouvia o padre, percebendo nas suas palavras uma
vontade grande de ajudar.
O padre
prosseguiu:
-
Venho a este lugar todas as semanas para falar com os meus
«doentes», para espalhar a palavra divina, para lhes dar numa oração o encontro imediato que eles
precisam de ter com o Deus que represento na Terra. Não são muitos, de
facto. Mas cumpro o meu dever de os ajudar.
João
continuou a mastigar e acenar com a cabeça, desconfortável pela palavra
ouvida e por se aperceber que seria má educação não responder.
- Faz
bem. As pessoas precisam de falar e de ouvir falar. Só temo que não lhes seja
dito, muitas vezes, o que elas precisam de ouvir.
O padre sorriu.
- Não forço ninguém a acreditar no que eu acredito. O que sei é que não
vem aqui mais ninguém que represente outra fé que não seja eu falando em nome da Igreja Católica.
- E é essa
a solução? A sua palavra faz doutrina?
- Não sei
se faz, ou não. Mas sei que as pessoas precisam de acreditar nalguma coisa.
- A fé não se vende, nem se impinge. Como é que elas reconhecem a existência de Deus?
- Mas esse
facto incomoda-o? Eu também não sei, com certeza absoluta, que haja Deus. Mas acredito que haja. É bom para mim e sob
o ponto de vista moral é importante.
- Mas acha
que os padres são como o senhor e não têm nada que se lhes aponte? São seres imaculados?
(…)
Sentou-se numa pedra lisa que despontava entre os
penhascos agrestes da desenvoltura do caminho, nascida sabe-se lá donde,
assentada ali pela calceteiro da Natureza, talvez há séculos.
Percebeu-se confortável, porque os primeiros raios de
Sol começavam a chegar-lhe ao corpo e a entrar nele, como afago e carícia.
Se não houvesse Sol, não havia vida no planeta. Se não
houvesse água, como aquela que lhe corria aos pés, a existência humana não era
possível.
Estava ali uma flor a olhar para ele.
Primeiro sorriu para ela. Depois atreveu-se a
acariciá-la. Estava molhada e as gotas de água que lhe escorriam das pétalas
eram muito mais puras que as lágrimas que ele próprio, já havia chorado, pelo
desconforto moral das últimas imposições que lhe tinham sido transmitidas, como
sinais, pela vida.
Reparou, a pouco e pouco, que havia mais flores, juntas
como se fossem da mesma família, amparadas umas às outras, a abrirem-se
sorridentes para aquele novo dia, claro e meigo.
As famílias deveriam ser todas assim, amigas, protectoras,
fraternas, carentes das suas carícias e pedindo mais carícias a quem lhes
estivesse próximo.
A flor maior sorriu-lhe. Ou seria ilusão? Deu-lhe os
bons-dias, podia ela gostar e sentir-se feliz por isso. Resolveu dar-lhe um
nome: Maria!
João tinha junto de si uma flor chamada Maria, ou
Maria Flor para que se consolidasse a analogia humana.
Afinal, João e Maria eram ambos Natureza e estavam
juntos, trocando carícias, naquela manhã nova da Natureza a crescer.
(…)
Sentaram-se
os dois na pequena mesa redonda, de saia larga, com um pequeno braseiro no
meio, que se acendia no Outono e no Inverno, ou nos dias mais frios que a província
dá às pessoas por entre as noites sós, aquelas que custam mais a passar.
Naquela casa, aliás, havia lareira, além do braseiro de mesa, porque quando faz
frio na Beira Interior é a sério.
- Olha
que quadro mais bonito. Os dois aqui sozinhos... Se alguém nos visse, até
podia achar a coisa estranha.
- E o
senhor João importa-se com o que os outros dizem ou pensam?
-
Isso é verdade. Claro que não me importo, mas...
- Deixe-se
dessas coisas. Só pensa mal quem quer.
Comeram a sopa
e a broa com chouriço e beberam uns copos de tinto
para lhes aquecer as almas.
O pior é que,
além das almas, também os corpos aquecem e João não deixou de lançar uns
olhares fortuitos à cara rosada de Alzira, aos seus braços roliços e aos seus
peitos grandes escondidos atrás de um casaco felpudo.
Estavam
juntos naquele local tranquilo sem sombras, a não ser as da noite, como se o
conhecimento fosse longo e amizade ainda mais, mas estavam sobretudo como dois
seres humanos incapazes de pôr as suas almas abertas em exposição mútua.
O Homem sofre desse problema absurdo de deixar
escapar, entre os dedos, o momento certo, o tempo conveniente, a altura exacta
(tal como o povo diz), porque continua a ter receio de mostrar as suas
fragilidades que são, afinal, naturais, porque instintivas.
A Natureza é
assim. Mas, por vezes, é uma pena que seja.