A TEORIA DE TUDO - Stephen Hawking


O  MODELO  DO   BIG BANG  QUENTE

Para explicar o tópico do meu artigo, vou primeiro descrever a história do universo que é normalmente aceite de acordo com o que é conhecido pelo «modelo do Big Bang quente». Este parte do princípio de que o universo, logo após o Big Bang, é descrito por um modelo de Friedmann. Neste tipo de modelos, à medi­da que o universo se expande a temperatura da matéria e da radiação diminui. Já que a temperatura é apenas uma medida da energia média das partículas, este arrefecimento do universo tem um efeito importante na matéria que o constitui. A temperaturas muito elevadas, as partículas movimentam-se tão depressa que podem escapar a qualquer tipo de atracção entre elas causada pela força nuclear ou electromagnética, mas, à medida que arrefecem, podemos esperar que as partículas sujeitas a forças atractivas se comecem a aglomerar.

No instante exacto do Big Bang, o universo tinha tamanho zero e por isso era infinitamente quente, mas à medida que o universo se expandiu a temperatura da radiação diminui. Um segundo após o Big Bang teria baixado para cerca de cem mil milhões de graus. Isto é cerca de mil vezes a temperatura no centro do Sol, mas já terão sido atingidas temperaturas desta ordem de grandeza em explosões de bombas de hidrogénio. Nesse momento, o universo terá contido principalmente fotões, electrões, neutrinos e as suas antipartículas, juntamente com alguns protões e neutrões.
À medida que o universo se expandia e a tempera­tura descia, a taxa com a qual os electrões e os pares de electrões estavam a ser produzidos em colisões terá diminuído para valores inferiores à taxa com que estavam a ser aniquilados, por isso a maioria dos electrões e antielectrões ter-se-ão aniquilado para produzir ainda mais fotões, deixando para trás apenas alguns electrões.
Cerca de cem segundos após o Big Bang, a tempera­tura caíu para os mil milhões de graus, aquela que encontramos no interior das estrelas mais quentes. A esta temperatura, os protões e os neutrões já não têm ener­gia suficiente para escapar à atracção da forca nuclear forte. Começaram então a combinar-se para produzir os núcleos dos átomos de deutério, ou hidrogénio pesado, que contêm um protão e um neutrão. Os núcleos de deutério combinaram-se então com mais protões e neutrões para produzir núcleos de hélio, que contêm dois protões e dois neutrões. Apareceram também pequenas quantidades de um par de elementos mais pesados, o lítio e o berílio.
Podemos calcular que, de acordo com o modelo do Big Bang quente, cerca de um quarto dos protões e dos neutrões se converteram em núcleos de hélio, junta­mente com uma pequena quantidade de hidrogénio pesado e de outros elementos. Os restantes neutrões decaíram para protões, que constituem o núcleo dos átomos de hidrogénio normais. Estas previsões adequam-se muito ao que e observado.
O modelo do Big Bang quente também prevê que sejamos capazes de observar a radiação sobrevivente destes primeiros momentos bastante quentes. No entanto, a temperatura foi reduzida a apenas alguns graus acima do zero absoluto devido a expansão do universo. É esta a explicação da radiação de fundo de microondas descoberta por Penzias e Wilson em 1965. Estamos, portanto, completamente confiantes de que temos a teoria correcta, pelo menos até cerca de um segundo após o Big Bang. Umas horas depois do Big Bang, a produção de hélio e de outros elementos parou. Em seguida, durante cerca de um milhão de anos, o universo continuou a expandir-se sem que nada de grande importância tenha sucedido. Por fim, quando a temperatura baixou para alguns milhares de graus, os electrões e os núcleos já não tinham energia suficiente para vencer a atracção electromagnética entre eles. Começaram então a combinar-se para formar átomos.

QUESTÕES   EM   ABERTO
Esta imagem de um universo que começou muito quente e arrefeceu à medida que se expandia está de acordo com todas as observações experimentais feitas até hoje. Contudo, deixa um certo número de questões importantes sem qualquer resposta. Primeiro, porque era o universo tão quente nos seus primeiros instantes? Segundo, porque é o universo tão uniforme em grandes escalas — porque parece idêntico em todos os pontos do espaço e em todas as direcções?
Terceiro, porque começou o universo com uma taxa de expansão tão próxima do valor limite para evitar uma nova contracção? Se um segundo após o Big Bang a taxa de expansão tivesse sido mais pequena uma parte em cem mil milhões de milhões, o universo ter-se-ia contraído de novo antes de atingir o seu tamanho presente. Por outro lado, se a taxa de expansão no final do primeiro segundo tivesse sido maior pela mesma margem, o universo ter-se-ia expandido tanto que estaria agora praticamente vazio.
Quarto, apesar de o universo ser tão uniforme e homogéneo em larga escala, contem pequenos aglomerados como as estrelas e as galáxias. Pensamos que estas se desenvolveram a partir de pequenas diferenças na densidade de uma região para a outra do universo primordial. Qual foi a origem dessas flutuações de densidade?
A teoria da relatividade por si só não pode explicar essas características ou responder a essas questões. Isto acontece porque prevê que o universo tenha começado com uma densidade infinita na singularidade do Big Bang. Na singularidade, a relatividade geral, juntamente com todas as outras leis físicas, deixa de ser válida.

(…)

Pode realmente existir uma teoria de unificação de tudo? Ou estamos apenas a perseguir uma miragem? Parece haver três possibilidades:
·      Existe realmente uma teoria de unificação com­pleta, que vamos por fim descobrir se formos suficientemente espertos.
·      Não existe qualquer teoria última do universo, apenas uma sequência infinita de teorias que descrevem o universo de uma forma cada vez mais precisa.
·      Não existe qualquer teoria do universo. Os eventos não podem ser previstos para alem de um certo limite; ocorrem de forma aleatória e arbitrária.

Alguns poderão sustentar a terceira possibilidade com o argumento de que, se houvesse um conjunto completo de leis, isso infringiria a liberdade de Deus de mudar a Sua opinião e de intervir no mundo. É como o velho paradoxo: será que Deus pode criar uma pedra tão pesada que nem Ele a pode levantar? Mas a ideia de que Deus poderá mudar de opinião é um exemplo de falácia, esclarecida por Santo Agostinho, que é imaginar que Deus é um ser que existe no tempo. O tempo é apenas uma propriedade do universo criado por Deus. Presumivelmente, Ele sabia aquilo que queria aquando da criação do universo.
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