AUSCHWITZ – UM DIA DE CADA VEZ - Westher Mucznik
Editora: a esfera dos livros
Rudolf Vrba
nunca esquecerá aquele dia 29 de Agosto de 1942. Era quarta-feira, dia em que
os prisioneiros recebiam um suplemento de meio pão e um pouco de salame. Nesse
dia funesto, ao voltar do trabalho, exausto e esfomeado, todos os seus
pensamentos se concentravam na perspectiva das “iguarias” que o esperavam. Mas
assim que passaram o portão da entrada, Vrba percebeu que se passava qualquer
coisa de diferente. Normalmente, à chegada do seu comando de
trabalho nocturno estava tudo calmo e as pessoas já deitadas, mas nesse dia o campo estava
em efervescência e todas as equipas diurnas
e nocturnas reunidas na praça da chamada.
Exausto, cheio de dores nas pernas e morto de fome, Vrba foi obrigado a permanecer, tal como os outros
prisioneiros, de pé na praça sem se
poder mexer ate as 3 horas da manhã, enquanto kapos e SS passavam em revista as pernas de cada um dos detidos em separado. Quan do
passavam à frente do SS, este observava as suas pernas a luz
de um potente projector e obrigava-os a correr separadamente cerca de 20 metros e a voltar no
mesmo passo. Com efeito, era em primeiro lugar nas pernas inchadas e com dificuldade de correr que era
diagnosticada a febre do tifo.
Assim, o objectivo deste teste era seleccionar os que tinham sido contagiados, condenando-os à morte
imediata. Se o chefe SS levantasse o dedo, o detido era levado para a fila da
direita, onde eram reunidos os que
ainda podiam continuar a trabalhar. Os outros, com as pernas inchadas pela falta de comida e cambaleando, eram
levados para o grupo da esquerda que desaparecia na escuridão da noite.
Vrba estava num
estado de total esgotamento depois de 24 horas sem dormir, dez das quais a trabalhar na
Buna e outras tantas a marchar ou de pé na praça, com o estômago vazio. Quando
chegou a vez, as suas pernas estavam
inchadas, embora não demasiado, e, tal como os outros, fez das tripas coração para correr, sabendo que a sua
vida estava em jogo.
Apesar disso, não passou no teste e foi enviado para a
fila da esquerda com um camarada seu. Milagrosamente, acabou por se salvar: já
na fila dos condenados, ambos foram reconhecidos por um kapo amigo,
que, dirigindo-se a eles à bastonada,
os arrancou do grupo da morte, gritando: “Seus patifes, não vêem que estão enganados, a vossa fila é a outra...” Na semi-obscuridade do amanhecer daquele dia terrível, Rudolf Vrba viu partir o grupo que acabava
de abandonar em direcção às câmaras de gás. Salvara-se por um
triz, mas metade da população do campo foi exterminada.
Nesse dia, quem decidiu a vida e a morte dos prisioneiros foi o Oberscharführer
(sargento-chefe) Jacob Fries: «Fries», escreve Vrba, «é um desses
brutamontes integrais produzidos por Auschwitz (...). Não era a sua estatura,
nem fácies de gangster, nem o olhar fixo ou a indiferença com a qual nos
observava, que o destacavam de todos os outros. Era a atmosfera que dele emanava, uma
atmosfera diabólica de morte, qualquer coisa que
instintivamente me fazia pensar que naquela longa carcaça não havia uma
onça de piedade, uma onça de bondade ou mesmo de respeito (...) Para mim Fries é Auschwitz, e assim o será para
todo o sempre.»
(…)
Em 1942, uma
comissão de oficiais das SS foi a Ravensbrück seleccionar as mulheres destinadas aos
bordéis de alguns campos. Estas foram obrigadas
a desfilar nuas em frente da comissão. A escolha recaiu naquelas que tinham seios firmes ou outros atributos
físicos. Para aliciar o máximo de voluntárias, foi-lhes prometido a libertação
no prazo de seis meses que, obviamente, não aconteceu... Em Auschwitz, o
bordel funcionou para prisioneiros «privilegiados» até à evacuação do
campo, poucos dias antes da sua libertação a
27 de Janeiro de 1945. Mesmo o sexo era organizado segundo os critérios
racistas nazis: havia bordéis separados para os SS alemães, para os SS ucranianos, e para os operários estrangeiros: STO - Serviço de Trabalho Obrigatório. Centenas de
mulheres a trabalhar aí foram vitimas
do que se pode chamar de violação organizada. Na sua maioria eram alemãs,
polacas, húngaras e checoslovacas seleccionadas
com base na sua aparência física e com idades compreendidas entre os 20 e 30 anos. A escolha era
semelhante ao processo de selecção
nos campos: as mais bonitas e fortes eram para as casas dos oficiais e em geral dos SS, as outras repartiam-se em
função do grau importância dos
«clientes». Escusado será dizer que nem judeus, nem russos tinham
qualquer possibilidade de acesso aos bordéis.
O «trabalho» durava duas horas, durante as quais eram
obrigadas a satisfazer cerca de oito homens. For vezes, dessas
relações sexuais forçadas resultavam gravidezes, mas poucas
chegavam ao seu termo. Na maioria dos casos eram obrigadas a abortar,
por vezes a própria mulher era morta, e raras vezes lhe era permitido
guardar a criança. Mesmo depois da guerra, muitas destas mulheres
continuaram a ser estigmatizadas, sob a acusação de se terem oferecido
voluntariamente. Não é impossível que nalguns casos tenha sido assim: para
algumas a prostituição podia eventualmente ser encarada como uma
possibilidade de viver mais um dia, mais uma semana, mais um mês. E apesar
de cépticos quanto a essa possibilidade, grande parte dos sobreviventes
não as condenam, porque sabem que, tal como todos os outros, essas
mulheres apenas queriam sobreviver.
No entanto, vergonha, embaraço,
dificuldade em abordar a questão sexual,
explicam em parte o silêncio que rodeou esta questão, principalmente na Alemanha, durante tanto tempo. «Havia
directivas para não abordar este assunto
com os visitantes», confessa Insa Eschenbach, directora do Memorial de Ravensbriick. «Queria-se evitar
os mal-entendidos, impedir que a presença dos bordéis falseasse e relativizasse
o horror dos campos »...
(…)
«Os alemães fizeram de nós umas assassinas»
A gravidez era uma mais do que
provável sentença de morte, mesmo quando as mulheres já chegavam grávidas ao
campo. «Em 1942, quando uma mulher chegava grávida ao campo, nem
ela nem a criança permaneciam em vida», escreve Nana Palarczyk. As
crianças eram assassinadas com uma injecção de fenol no coração.
Mas em 1943 houve uma mudança: a prisioneira podia dar a luz, mas a
criança não tinha direito a vida, a não ser que tivesse os cabelos louros e os
olhos azuis. Nesse caso era tirada à mãe e levada para ser educada como alemã.
Mesmo assim, das 700 crianças nascidas em Auschwitz, sobreviveram menos
de 50. As outras «eram afogadas numa bacia com água e os seus corpos
queimados». Quando a mãe tentava salvar o seu filho ainda era pior:
uma dessas mulheres conseguiu esconder o seu filho durante cinco
meses, mas acabou por ser
descoberta e obrigada a levá-lo para a morte. Com ele ao colo, o fim
de ambos foi a câmara de gás. Numa tentativa desesperada para salvar
as jovens mães, Alberto Benveniste, que trabalhava nas rampas de
chegada dos deportados, gritava em grego aos seus compatriotas recém-chegados
de Salónica para entregarem as suas crianças aos velhos: «As jovens
mães devem entregar os seus filhos à mulher idosa mais próxima: os
velhos e as crianças estão sob protecção da Cruz Vermelha.» Sabendo
o verdadeiro destino daqueles, Alberto tentava ao menos salvar as mães.
Uma jovem checa de 21 anos chegou
grávida ao campo e teve aí o seu filho. Oito dias depois, Mengele
avisou-a que ela seria «levada» no dia seguinte. Ela sabia o que isso
significava. Quando escureceu, uma desconhecida aproximou-se
dela, com uma seringa na mão: «Dá isto ao teu filho, é uma dose
forte de morfina, para ele é melhor.» «Mas eu não posso matar o
meu próprio filho», respondeu a jovem, desesperada. «Tem de ser, eu
sou médica, o teu filho não viverá e a ti, eu tenho de te salvar, tu és jovem.» Depois de duas horas
de resistência, a jovem mãe obedeceu: «O meu bebé morreu lentamente, muito
lentamente ao pé de mim.» A mãe sobreviveu ao campo
mas nunca se perdoou a si própria. «Os alemães fizeram de nós umas assassinas», escreve Olga Lengyel. Tal como ela, as enfermeiras não tinham escolha. Mas o
tormento da culpabilidade perseguiu
estas mulheres para sempre.
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