A inspectora esboçou um esgar inquisitivo. “Erros? Que erros?” O historiador susteve-lhe o olhar. “Não sabia? A Bíblia contem muitos erros.” “O quê?” Tomás girou a cabeça em redor, procurando certificar-se de que ninguém o escutava. No fim de contas encontrava-se em pleno Vaticano e não queria desencadear nenhum incidente. Viu dois sacerdotes junto à porta que conduzia à Leonina, um deles devia ser o preffeto da biblioteca, mas concluiu que a distância era suficientemente grande e não corria o risco de ser escutado. Inclinou-se, mesmo assim, para a sua interlocutora e numa postura de conspirador preparou-se para partilhar com ela um segredo de quase dois milénios. “São milhares de erros a infectar a Bíblia”, murmurou. “Incluindo fraudes.”
(…)
"A Igreja percebeu que é um absurdo afirmar que Jesus é cem por cento humano e cem por cento Deus. Não faz sentido! E percebeu que é também incompreensível defender que Deus, Jesus e o Espírito Santo são três entidades divinas totalmente distintas umas das outras e, porém, só existe um Deus. Mas não quis recuar nas suas posições paradoxais. Então o que fez? Fugiu em frente. Incapaz de resolver estas contradições., mas não querendo dar razão aos ebionitas, ou aos gnósticos, ou aos docetas, limitou-se a declarar que isto é tudo um grande mistério." Mudou o tom de voz, como se fizesse um aparte. "No que, aliás, até tem razão: é um mistério porque não faz nenhum sentido." Retomou o tom normal. "E assim, como quem esconde o lixo debaixo do tapete para fingir que ele não existe, lavou as mãos da trapalhada teológica que montou. E aqui está, em todo o seu esplendor, o mistério da Santíssima Trindade." Chegaram junto da viatura de serviço da polícia búlgara. O anfitrião retirou a chave do bolso, mas não entrou de imediato. "De certeza que isso faz sentido e nós é que somos burros", observou. "Mas o que eu quero perceber é qual a relação entre esse assunto e a charada deixada pelo autor dos crimes que estamos a investigar." O olhar dos três descaiu para o objecto na mão de Tomás, o plástico com a folha de papel encontrada junto à vítima de Stariot Grad. "Por algum motivo que me escapa, o nosso homem quis nesta mensagem chamar a atenção para as ficções criadas em torno da divindade de Jesus e da Santíssima Trindade", disse ele. "Se a segunda parte desta charada incide na adulteração que conduziu ao teta-sigma que transformou Jesus num Deus, talvez o primeiro símbolo se relacione também com adulterações do Novo Testamento relativas à Santíssima Trindade." "Também aí houve adulterações?" "Claro que houve. Basta ler o Novo Testamento para perceber que em parte alguma se fala na Santíssima Trindade. Nem mesmo no Evangelho segundo João!" Abriu o seu exemplar da Bíblia. "A excepção, claro, é a Primeira Carta de João, onde, em 5:7-8, está escrito: 'Porque três são os que testificam no céu, o Pai, a Palavra e o Espírito Santo: e estes três são um. E há três que prestam testemunho na Terra, o Espírito, a água e o sangue; e os três estão de acordo.'" Valentina lançou-lhe um olhar desconfiado. "Vai dizer-me que isso é falso." "Duplamente", confirmou Tomás. "Em primeiro lugar, as três Cartas de João que constam do Novo Testamento são fraudes. O apóstolo João, que os Actos dos Apóstolos revelam ser 'analfabeto', não as escreveu. Confrontada com este problema, a Igreja diz que a epístola pode não ter sido escrita por João, mas mesmo assim o seu conteúdo é 'inspirado' por Deus. E uma maneira de ignorar o problema embaraçoso de existirem textos canónicos fraudulentos, embora essa prática na altura não fosse considerada condenável. Mesmo que se aceite essa ficção, o facto é que este versículo nem sequer fazia parte da carta original. Nenhum manuscrito grego o contém desta maneira. O texto foi adulterado para meter à força a referência ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, num exemplo claro de adaptação dos factos à teologia." "E diz você que essa era a única referência no Novo Testamento à Santíssima Trindade?" "A única", insistiu o historiador. "E é duplamente falsa." Soprou, como se assim o versículo se desfizesse em pó. "Já não resta mais nada.”
(…)
XLVII
"Jesus discriminava as pessoas?" Arnie Grossman tinha ido à janela do quarto do hospital e espreitava Jerusalém à noite. Era tarde, mas a descodificação do último enigma ainda não estava concluída. "Claro", respondeu Tomás, deitado ainda na sua cama. "Lembre-se que ele nasceu judeu, viveu judeu, morreu Judeu. Achava que pertencia ao povo eleito." O inspector-chefe da polícia israelita voltou-se e encarou-o. "Isso já nos explicou", disse. "Mas sejamos razoáveis. O cristianismo espalhou-se pelo mundo. Que história é essa de que Jesus discriminava as pessoas? Não é o cristianismo uma religião universalista?" Tomás indicou com a cabeça o enigma rabiscado no papel que se encontrava nas mãos de Grossman. "Sabe, as consequências últimas da charada que o meu agressor nos deixou remetem-nos directamente para a fundação do cristianismo." "Em que sentido? Não percebo." O historiador suspirou, como se ganhasse fôlego para a sua derradeira explicação. "Proponho que façamos uma viagem no tempo", disse, indicando a cidade para além da janela. "Recuemos dois mil anos. Estamos em Jerusalém algures entre o ano 30 e o ano 33. É a semana do Yom Kippur, o dia da expiação, no mês de Tíshri. A cidade enche-se de judeus que vieram de toda a parte para oferecer um sacrifício no Templo em expiação pelos seus pecados, como requerido pelas Escrituras. Os Romanos reforçam a guarnição, porque sabem que o potencial para tumultos é elevado. Também os sacerdotes do Templo se mostram vigilantes, conscientes de que o clima com tanta gente junta é sempre volátil. Entre os peregrinos aparece um grupo acabado de chegar da Galileia." "Jesus e os seus apóstolos." "Ou seja, um bando de provincianos. Acreditam, como acreditavam outros judeus na altura, que o fim do mundo está próximo e Deus em breve intervirá para impor a Sua lei e acabar com o sofrimento dos mais fracos. Até ali, este grupo apenas teve palco nas terriolas da Galileia e foi rejeitado pelos pacóvios que ali viviam. Como eram cegos aqueles labregos! Jerusalém no Yom Kippur, porém, é a sua grande oportunidade. A cidade fervilha de gente. São mais de dois milhões de judeus oriundos de toda a Judeia. Que melhor palco poderia haver para alertar as pessoas para a necessidade de se arrependerem dos seus pecados e de se prepararem para a nova idade de ouro?" Valentina, que se remetera ao silêncio depois de ouvir as últimas revelações, animou-se neste ponto. A história da última semana de Jesus era uma das suas favoritas. "Ele entrou em Jerusalém sentado num jumento, não foi?" "E o que contam os Evangelhos", confirmou lemas. "O profeta Zacarias escreveu no Antigo Testamento, em 9:9: 'Exulta de alegria, filha de Sião! Solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti: ele é justo e vitorioso, humilde, montado num jumento.' Assim, ou Jesus entrou em Jerusalém montado num jumento para insinuar que era o rei profetizado nas Escrituras, ou os evangelistas inventaram este pormenor para convencer os seus contemporâneos de que Jesus preenchia os requisitos da profecia. Nunca saberemos com exactidão qual a verdade, embora tenhamos a certeza de que este pormenor está relacionado com o texto de Zacarias." "Estou a entender", assentiu a italiana. "Mas depois vem a história do Templo." "Sim, Jesus cria um incidente no Templo e põe-se a profetizar a sua destruição, atraindo os olhares das autoridades. A seguir é preso, julgado, condenado à morte e crucificado. Toda essa história é por demais conhecida." "E então?" "O que é importante já não é o que sucede a Jesus, mas a forma como os seus apóstolos interpretam esses acontecimentos." Valentina sacudiu a cabeça. "Não estou a perceber..." "Ponha-se no lugar dos apóstolos. Estamos a falar de pescadores e artesãos analfabetos da Galileia, que largaram tudo e decidiram seguir este rabino que os assustava com o anúncio do fim do mundo e lhes prometia a salvação se o seguissem e fizessem o que ele lhes dizia. O rabino prometia-Ihes mesmo que cada um deles iria chefiar uma das doze tribos de Israel quando o reino de Deus fosse instaurado e os últimos, isto é, eles próprios, se tornassem primeiros. Era gente pobre, inculta e crédula. Acreditavam que o rabino, que viram fazer curas milagrosas, gozava da protecção divina e dizia a verdade. Podia mesmo ser o enviado de Deus! E por isso seguiram-no. Andaram a penar pela Galileia e foram a Jerusalém anunciar a boa nova a todos os judeus. Esta viagem seria a consagração. Israel render-se-ia ao rabino Jesus e reconhecê-lo-ia como rei. Deus desceria então à terra e instauraria o Seu reino! Ou seja, as expectativas dos apóstolos eram muito elevadas. Mas, em vez dessa consagração, apoteótica, o que acontece na verdade?” “Jesus foi preso e executado.” “Isso não estava no programa! Em vez de ser coroado, o rabino é preso, humilhado e morto. Que fazem os apóstolos? Fogem! Receiam pela sua vida e escondem-se entre os mais de dois milhões de judeus que enchem Jerusalém para o Yom Kippur. Isto mostra que Jesus nunca lhes falou deste desfecho e que as palavras postas na boca dele nos Evangelhos a profetizar a sua própria morte são antes retroacções inseridas pelos evangelistas. O que vai então na cabeça dos apóstolos quando Jesus é crucificado? Além do medo, a desilusão. Afinal o rabino não era o mashia! Tinham-se enganado. Seguiram um falso profeta!
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