UM MUNDO INFESTADO DE DEMÓNIOS - Carl Sagan
Mas por que razão as experiências «psíquicas» põem em causa a ideia de que somos feitos de matéria e apenas de matéria? Existem muito poucas dúvidas de que, no mundo de todos os dias, a matéria (e a energia) existe. As provas disso encontram-se por todo o lado à nossa volta. Pelo contrário, como disse atrás, os indícios de qualquer coisa de não material chamada «espírito» ou «alma» suscitam grandes dúvidas. E claro que todos nós temos uma vida interior rica. No entanto, considerando a fantástica complexidade da matéria, como poderemos provar que a nossa vida interior não lhe é totalmente devida? E certo que existem muitas coisas na natureza humana que não compreendemos perfeitamente e que não conseguimos ainda explicar pela neurobiologia. Os seres humanos têm limitações e ninguém sabe isso melhor que os cientistas. No entanto, há uma multiplicidade de aspectos do mundo natural que eram considerados miraculosos há poucas gerações e estão agora completamente compreendidos nos termos da física e da química. Pelo menos alguns dos mistérios de hoje serão completamente resolvidos pelos nossos descendentes. O facto de agora não termos uma explicação completa para, por exemplo, os estados alterados de consciência em termos de química do cérebro não implica a existência de um «mundo do espírito», tal como um girassol que acompanhava a rotação do Sol no céu não era prova de um milagre natural antes de conhecermos o fototropismo e as hormonas das plantas.
E se o mundo não corresponde em todos os aspectos aos nossos desejos, isso será culpa da ciência, ou daqueles que impõem a sua vontade ao mundo? Todos os mamíferos — bem como muitos outros animais — têm emoções: medo, lascívia, esperança, dor, amor, ódio, necessidade de ser dirigidos. Os homens podem reflectir mais sobre o futuro, mas não há nada nas nossas emoções que seja exclusivo nosso. Por outro lado, nenhuma outra espécie faz tanta ciência como a nossa, ou tão bem como nós. Então como pode a ciência ser «desumanizante»?
No entanto, ela parece injusta: alguns de nós morrem à fome na infância, enquanto outros — por um acaso de nascimento — vivem toda a vida na opulência e no esplendor. Podemos ter nascido numa família violenta ou num grupo étnico discriminado, ou começado com uma deformidade qualquer; atravessamos a vida com o baralho marcado contra nós, depois morremos, e é tudo? Apenas um sono sem sonhos e sem fim? Onde está a justiça nisto? É brutal e implacável. Não devíamos ter uma segunda oportunidade num jogo equilibrado? Seria muito melhor que nascêssemos de novo em circunstâncias que tomassem em consideração o modo melhor ou pior como desempenhámos o nosso papel na última vida, independentemente de o baralho estar mais ou menos viciado contra nós. Ou se houvesse um julgamento após a nossa morte, na sequência do qual — na medida em que nos contentássemos com a personagem que nos foi dada nesta vida e nos mostrássemos humildes e crentes e tudo isso — fôssemos recompensados, vivendo alegremente até ao fím do tempo num refúgio permanente que nos protegesse do sofrimento e da agitação do mundo. Era assim que seria se o mundo tivesse sido pensado e planeado, fosse justo. Era assim que seria se os que sofrem recebessem o consolo que merecem.
Assim, as sociedades que pregam a satisfação com a nossa actual passagem pela vida na expectativa de uma recompensa depois da morte tendem a vacinar-se contra a revolução. Além disso, o medo da morte, que, nalguns aspectos, é adaptativo na luta evolucionária pela existência, é inadaptativo na guerra. As culturas que ensinam a existência de uma outra vida de bem-aventurança para os heróis — ou mesmo para aqueles que apenas fizeram o que lhes disseram os detentores da autoridade — podem conseguir uma vantagem competitiva.
Deste modo, a ideia de uma parte espiritual da nossa natureza que sobrevive à morte, o conceito de uma outra vida, deve ser fácil de vender pelas religiões e pelas nações. Neste campo não podemos esperar um cepticismo muito generalizado. As pessoas querem acreditar nisso, ainda que os indícios sejam escassos, para não dizer nulos. É verdade que as lesões cerebrais nos podem fazer perder segmentos importantes da memória, ou transformar maníacos em homens plácidos, ou vice-versa; e as alterações na química do cérebro podem convencer-nos da existência de uma grande conspiração contra nós, ou fazer-nos pensar que ouvimos a voz de Deus. No entanto, se bem que um testemunho tão decisivo como este estabeleça que a nossa personalidade, o nosso carácter e a nossa memória —a nossa alma, se se quiser — residem na matéria do cérebro, é fácil não centrar a atenção nele, encontrar maneiras de contornar o peso da evidência.
Se houver instituições sociais poderosas a insistir que há uma outra vida, não é de surpreender que os dissidentes sejam tão raros, silenciosos e ressentidos. Algumas religiões orientais, cristãs e New Age, bem como o platonismo, afirmam que o mundo é irreal, o sofrimento, a morte e a própria matéria são ilusões, e que nada existe, excepto a «mente». Pelo contrário, a perspectiva científica prevalecente é que a mente é o modo como apreendemos o que o cérebro faz, ou seja, é uma propriedade dos cem biliões de ligações neuronais no cérebro.
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