A MEDICINA E A LITERATURA - Armando Moreno

O paralelismo entre todas as actividades do Homem ao longo dos séculos obriga a seguir a História para encontrarmos a sequência e a correspondência da evolução entre a Música e a Medicina. É curioso notar que muitos dos grandes eventos médicos, como a epidemia de peste do século XIV, as Medicinas não europeias, como a chinesa e a árabe, encontram paralelo na História da Música, como não é menos interessante concluir que a doença que atingiu vários compositores, como Stravinsky ou Paganini se reflectiram nas suas obras. Se entendêssemos que os sentimentos levados ao extremo constituem males psíquicos a serem encarados como doença, não seria estultícia aceitar, também, que toda a Música clássica está relacionada com a Medicina. Na verdade, quer os libretos de ópera, quer muitas das Sinfonias de grandes compositores estão eivadas de sentimentos de várias naturezas, alternando os épicos com as depressões, visões degradadas da tragédia humana. Temas de paixão amorosa, de ciúme e drama entrelaçam-se com passagens biográficas dos compositores. A própria noção, ideia ou sentimentos da oposição entre A Cidade e as Serras, que o nosso Eça reinventou, encontra-se em várias obras como acontece entre a 5.ª (a Sinfonia do Destino) e a 6.ª (a Pastoral) de Beethoven, uma urbana a outra rural, ou a Sinfonia N.º 1 e a Sinfonia N.º 2 de Brahams, a primeira de dimensões épicas, a segunda verdadeiramente pastoril. O mesmo se pode dizer da Sinfonia de Requiem de Benjamim Britten, escrita para exéquias de seu pai, e a sua Sinfonia da Primavera. Outros e múltiplos exemplos podem ser referenciados. A importância mística que, na sua origem, a Música e a Medicina assumiram, mesmo já no período da afirmação helénica, é tão relevante que a busca de uma divisão da oitava, tema maior da evolução musical, se encontra retratada em historietas tradicionais. Os gregos fizeram esta divisão colocando os tons e os meios tons de várias maneiras, dando o nome de modo dórico, frígio, lídio, entre outros, a cada um. Ora, conta-se que, certa noite, Pitágoras, admirando os astros, ouviu um grande restolho provocado por um bando de estudantes que procuravam arrombar a porta da casa de uma conhecida e bela actriz. Ali perto, um tocador de flauta ensaiava uma melodia no modo frígio, o que aumentou a fúria dos rapazes. Então, Pitágoras ordenou-lhe que tocasse a melodia no modo dórico o que de imediato acalmou os rapazes que seguiram calmamente para suas casas. Esta historieta reflecte bem a importância da Música no psiquismo individual e de massas e, por outro lado, contém, na sua simplicidade, elementos importantes para o conhecimento da História da Música. Como todas as referências à História da Humanidade, em relação aos primórdios temos de nos valer de dados recolhidos através de referências colaterais, restos de utensílios que, no caso da Medicina têm sido encontrados em várias regiões, mormente em Portugal, mas que, no caso da Música são muito restritos. Aqui e ali aparecem restos de instrumentos, como é o caso de pequenas flautas de osso do princípio do Paleolítico. Provavelmente, as duas actividades nunca estiveram tão próximas como nesses tempos recuados em que tudo era envolvido por uma mística que abraçava a Medicina e a Música num mesmo amplexo. O feiticeiro era, frequentemente, o Músico, embora Uderzo, o criador de Obelix, nos desenhe as duas figuram independentes: Panoramix, o druida e Ca-cofonix, o bardo, mau cantor perseguido e maltratado. Entre os gregos, perfila-se a história de Orfeu que, com a sua lira, pretende arrancar Euridice às garras da morte, afinal um dos objectivos da Medicina. Se existem motivos pontuais para relacionar a Medicina com a Música, mais interessante e assumido é o modo como a Humanidade vai abrindo caminho como organização social, com paralelismo notável em todas as suas actividades. Repare-se como os gregos, a par da sua Arquitectura, Dórica, Jónica e Coríntia, criaram as escalas que referi acima, a Dórica, a Frigia e a Lídia. Por outro lado, as grandes revoluções ou os grandes pensadores influiram de modo decisivo na evolução e características da Música e mesmo a prevalência de Países no domínio da cena mundial tem sido determinante. Os sons de Gershwin transparecem a vida americana e os temas de Smetana transmitem as frias regiões nórdicas. Wagner nunca poderia ter nascido em Itália e sem a situação de dependência da Polónia não teríamos as Polacas de Chopin. A Eroica só podia ter suscitado a imaginação de Beethoven depois da Revolução Francesa e o seu rasgo de riscar a dedicatória a Napoleão, só depois de este se ter auto-coroado Imperador. A própria Musicoterapia, cujas raízes podem ser encontradas na Grécia Antiga, só podia realizar-se como Medicina na nossa época em que o assalto à Medicina Científica se desdobrou num número quase incontável de terapias, reflectindo o desnorte de uma época em que a noção da relatividade de Einstein provocou o descalabro da ordem social. O próprio Gershwin coloca, no centro da sua ópera, um estropiado e toda a obra revela como o Homem está sujeito às fúrias do destino, salientando relâmpagos e trovões, depois de um delicioso Summer Time. Dito de outro modo, pela pena de Ernest Bloch, referindo-se à sua Sinfonia Israel: "Quando escrevi esta obra, o Mundo encontrava-se em circunstâncias idênticas às de hoje. Plus ça change, plus s’est Ia même chose." Mas se existem todos estes paralelismos entre as duas actividades, Medicina e Música, é no seu confronto que iremos pesquisar o ponto mais interessante de todo o presente trabalho: a velha questão, que invade todas as actividades humanas, sobre a importância da emotividade. Como é sabido, quer uma quer outra tomaram as suas raízes na mística e só muito tarde, essencialmente com a civilização grega, vieram a libertar-se da influência da emotividade, a Medicina pela mão de Hipócrates, a Música através de Pitágoras, Aristóteles, Platão e outros grandes filósofos, como veremos. Este tema, da emotividade, assume tal importância que está presente em todas as actividades do Homem, incluindo a História da Música e a História da Medicina. Ainda hoje a questão se coloca fortemente, quando o doente se questiona se prefere um médico sabedor se um médico afectivo. E na área da Música, como em todas as Artes, a questão constitui o cerne de muitas escolas e tendências assumindo mesmo, na carreira de vários compositores, o ponto crucial que os levou, em muitos casos, à alteração do tipo de produção, como veremos. É bom salientar que todas as evoluções não se processaram abruptamente e que as mudanças, quer na Medicina quer na Música, foram sofrendo uma evolução quase contínua. Teremos, assim, a noção clara de que a divisão da História em segmentos delimitados é mera orientação e que cada uma das eras se entrecruza com as anteriores e com as seguintes. Ao longo do presente trabalho, são apresentados modestos resumos de algumas óperas, apenas aquelas que, de algum modo, contêm cenas relacionadas com actos médicos.

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A Realização da Poesia
La Bohème constituiu, logo na estreia, um dos maiores triunfos de toda a História do teatro moderno. Se é possível resumir a história triste de Violetta, considerar-me-ia ultrajado por mim próprio se tentasse resumir o que se passa no palco durante a representação de La Bohème. Se Platão tivesse assistido, ficaria satisfeito pela sua defesa de que a Música deve seguir o sentido das palavras. A cena do encontro da Mimi com Rodolfo assume tal profundidade poética que não encontro outra igual em toda a criação operática, nem palavras para a descrever. Já antes, o confronto de Rodolfo com a sua obra, queimando o seu próprio trabalho para obter o calor que livrará, momentaneamente, os três artistas do frio da mansarda, atinge um expoente de sensibilidade literária inesquecível. Depois de ter escrito este desabafo, à modo de penitência ou catarse, ganho coragem para esboçar algumas linhas sobre o entrecho. Numa mansarda parisiense, vivem quatro artistas pobretanas. Abre o l acto com a presença de dois deles: o poeta Rudolfo e o pintor Marcelo. Queixam-se do frio da noite de Natal e o poeta queima a sua produção para se aquecerem. Entra Colline, o filósofo, que conseguiu alguns víveres e depois Schaunard, o pintor, que vendeu um quadro. Festejam. Bate à porta o senhorio que vem exigir a renda mas os quatro companheiros resolvem a questão, ludibriando o velho. Rodolfo tem o compromisso de escrever um artigo para um jornal e saem os três, prometendo o poeta juntar-se-lhes no Café Momus, assim que acabar de escrever o artigo. Batem à porta e Rudolfo abre: é a sua vizinha Mimi que, tendo-se apagado a sua vela, vem pedir ao vizinho que lha acenda. Com a vela, acende-se entre os dois uma forte relação de amor. Ela perde a chave e Rodolfo encontra-a, abrindo a enorme ventura da paixão. Por fim, saem os dois a caminho do Café Momus, não sem Mimi relatar o que faz e como é seu o primeiro sol da Primavera, sobre os telhados de Paris.

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Os Motivos
Se compulsarmos os libretos mais conhecidos, encontramos dados quase constantes, uns mais frequentes do que outros. O amor, acompanhado pelo ciúme, é um condimento quase sempre presente. Quase poderíamos afirmar que sem o amor as obras de Arte perderiam o seu mais sério promotor. Cantigas de Amor e de Amigo, baladas de cavalaria, dramas e romances estudam aspectos deste sentimento, explorado de vários ângulos. A bela Esmeralda, da pena de Victor Hugo, é amada de um modo pelo padre de Notre Dame, de outro modo pelo Quasímodo e ainda de modo diferente pelo Cavaleiro do Sol. Na ópera, o amor assume o fio condutor do entrecho em tantas obras que seria fastidioso fazer uma listagem. Sem sombra de dúvida que o motivo mais solicitado pelos libretistas é o amor, espicaçado ou não pelo ciúme. A coragem é também solicitada com frequência, ou em defesa do mesmo amor, ou da honra, do patriotismo ou contra seres imaginários e monstruosos, como em A Flauta Mágica, de Mozart, em O Anel dos Nibelungos, de Richard Wagner. As lutas psicológicas que Victor Hugo desenvolve no seu Nossa Senhora de Paris que dão uma pálida ideia do que viria a ser todo o entrecho das óperas de Richard Strauss, imbuídas do seu Expressionismo são, ainda, motivo de inspiração. A vingança está também presente em várias óperas Mas, pôr certo, é a Música e a voz dos intérpretes que atrai o grande público, a par dos grandes coros. Na Ópera Bufa, o Jocoso ocupa papel de destaque, como em O Barbeiro de Sevilha, de Bizet ou La Senerentolla ou mesmo em As Bodas de Fígaro, de Mozart. As Soluções Uma vez engendrados os panoramas gerais da obra, os libretistas procuram encontrar soluções para as complicações desenvolvidas na primeira parte da obra. Não obstante existam soluções variadas, saídas relacionadas com a área da Medicina são muito frequentes. A morte encontra-se na primeira linha de escolha dos autores de libretos. Se a protagonista adoece, é certo que vai morrer. Outra saída consiste na loucura. No Hamlet, a Ofélia acaba por se afogar entre movimentos de loucura, adicionando assim, a loucura e a morte. Também em Os Puritanos, de Bellini, Elvira enlouquece. A política assumiu grande importância nas composições de Verdi mas já antes várias obras recorreram a este tema, como os referidos Os Puritanos, de Bellini. A mística e a bruxaria estão presentes em muitas obras, como em A Flauta Mágica, de Mozart ou em várias obras de Richard Wagner. Outro condimento que entretém sobremaneira o grande público é o equívoco, o engano, mesmo a mentira. O conto do vigário encanta e proporciona momentos de diversão. A vingança está inscrita no quotidiano do espectador que espera sempre que a um crime corresponda o castigo da forca, da guilhotina ou de qualquer outro tipo de morte. No fundo, é o sentimento semeado pela noção de céu e inferno, tão de agrado das religiões ocidentais. Por fim, a doença, em situações que, de um modo geral, hoje já teriam remédio, ataca, com frequência, as protagonistas que, apesar de tudo, cantam até morrer. Como pode concluir-se, as pessoas vão à Ópera para se divertirem, para passarem um tempinho agradável, mas, sobretudo, para alimentarem o seu ego maldoso, deixando vir à superfície os desejos mais escondidos, tudo com a pretexto de que estão a cultivar-se, a gozar as obras de Arte que os grandes compositores nos legaram. Esta catarse colectiva termina com um debandar da sala de espectáculos com a lagrimita no olho. Não é só na Ópera que tal se passa. Ao longo da sua História, a Literatura de ficção, o Teatro, o Cinema recorrem ao que de mais vil tem o espírito humano, e se deleita com situações quando não mesquinhas, seguramente vingativas, maldosas, violentas e destruidoras. Chama-se a isto, drama. Os felizes não têm história, diz-se. A verdade é que têm, mas ninguém se interessa por essas histórias que não dão pasto aos tais sentimentos violentos e à necessidade de arranhar o íntimo mais lúgubre e destruidor que nos consome. Vale que há quem escreva óperas bufas, quem se entretenha a fazer rir os espectadores, a olhar o lado do Mundo mais agradável, menos vingativo. Mas a esses, chamamos palhaços. Por tudo isto, vamos à Ópera.

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