QUANDO OS MACACOS SE APAIXONAM - George StilWell

Alguns insectos também usam os sinais visuais para encontrar amantes. A exibição das cores vivas nas asas das borboletas é o caso mais paradigmático, mas existe outro igualmente famoso se bem que poucos saibam a sua real função – a luz produzida pelos pirilampos ou vaga-lumes. As mais de 2.000 espécies deste insecto conseguem produzir uma luz fria (não possui as frequências ultravioletas ou infravermelhas) a partir de reacções químicas que têm lugar no seu abdómen (bioluminescência), sendo que uma merece o nome da nossa terra (Luciola lusitanica). Entre estes insetos não é só a luz que serve para atrair os parceiros, mas também o ritmo e a frequência com que se acende e apaga, parecendo que se está a comunicar por código morse. Tanto a luz como o ritmo são típicos de cada espécie evitando assim situações embaraçosas como entrar na cama de uma prima. No entanto o oportunismo mais uma vez entra em cena - fêmeas dos pirilampos Photuris conseguem imitar os flashes de outras espécies para atrair os machos para um jantar que de romântico não tem nada. Porque os machos enganados acabam comidos, as fêmeas Photuris recebem a designação da femme fatale dos pirilampos.
O ritual de chamar a atenção de um pretendente através da visão é complexo em quase todas as espécies e estamos longe de perceber todos os sinais usados. Entre os humanos, certos movimentos subtis do corpo têm um significado especial amplamente conhecido - o piscar o olho, a posição das pernas, o olhar de soslaio, a forma de passar a mão pelo cabelo ou lábio... Se bem que será sempre difícil perceber todos os comportamentos equivalentes nos animais, alguns começam a ser agora conhecidos. E não se pense que é só um agitar casual e indiferente do corpo, asa, cauda ou barbatana. Há regras e ler mal os sinais pode mesmo por a vida em risco naquelas espécies cujas fêmeas têm mau feitio, maior tamanho e enormes presas.
Uma pequena borboleta (Eurema lisa) tem um reportório de 8 passos que os machos tentam repetir sem falhas em frente das suas namoradas. Após filmagens passadas em câmara lenta mostrou-se que a cópula só existia quando os 8 movimentos eram exibidos sem falhas ou trocas, favorecendo assim o melhor artista ou, pelo menos, aquele com melhor memória. No caso do mandarim (Taeniopygia guttata) uns suaves movimentos de vénia por parte da fêmea garantem ao macho que este se pode aproximar para consumar o casamento sem o perigo de ter de ir primeiro às compras ao shopping mais próximo. Nos chimpanzés as fêmeas adotam certas posições e atitudes que mostram recetividade, desde oferecer-se para catar piolhos até sentar-se de costas para o pretendente. Os machos da mosca Panorpa cognata oferecem como prenda e sinal de interesse pela vizinha jeitosa uma secreção salivar pegajosa, ao que se segue uma complexa sequência de passos de dança. Felizmente que este método não pegou entre os nossos ascendentes!
Em contraste com estes sinais subtis há a atração pela exuberância, elegância e extravagância dos movimentos ou, simplesmente, pela força bruta. É mais uma vez entre as aves e os peixes que encontramos os melhores dançarinos do Reino Animal. Como num espetáculo de bailado, a graciosidade dos movimentos e a eminência das cores estão muitas vezes associadas. A ave-do-paraíso é um candidato sério à eleição do melhor sedutor por via do espetáculo. Talvez existam aqueles que usam melhores vestimentas e aqueles com uma coreografia mais esmerada, mas é esta ave tropical aquela que melhor coliga as duas artes - abrindo as caudas e asas coloridas esvoaçam continuamente entre árvores, rodam acrobaticamente sobre os ramos, e contorcionam a cabeça sobre o dorso. Não há fêmea que resista.
Um outro artista na atração por ostentação é o combatente de que já falámos. Na verdade estas aves limícolas não travam verdadeiras batalhas, mas juntam-se num terreno de erva baixa e cada macho adulto (esta é uma das poucas aves em que machos apresentam plumagens diferentes entre si) ocupa uma área de poucos metros quadrados e exibe uma dança complexa e prolongada. Os machos imaturos, sem a plumagem de guerra, esperam nas imediações que os adultos desistam ou saiam para fumar um cigarrito. No fim as fêmeas que observaram o torneio escolhem o seu paladino e o casal retira-se para uma pousada em local incerto. Aliás, uma das teorias sobre a utilidade destes terrenos de exibição é mesmo esta - como se trata de um momento de grande alarido e espalhafato não convém ser perto dos locais de nidificação. Se algum predador for atraído pela bagunça, as perdas previstas são reduzidas pois quase todos conseguirão voar para a segurança.
Nalguns habitats e para algumas espécies nem sempre é fácil nem seguro fazer-se ver. Primeiro porque o ambiente pode ser de dimensões relativamente gigantes, ter demasiada vegetação e outros obstáculos ou simplesmente porque está escuro, e segundo porque aqueles que visualizam os sinais podem não estar interessados em sexo, mas em tornar o sinaleiro num item para o almoço. É por estas razões que surgiram formas mais intrincadas de se fazer notar - através do som e através do cheiro.
Mais uma vez são as aves as grandes dominadoras na arte de bem seduzir pela voz, ou não fossem elas as possuidoras das gargantas mais inspiradas do Reino Animal, graças a um órgão especializado chamado siringe. É verdade que alguns mamíferos marinhos e os morcegos precisam do som para comunicar e orientar-se, mas o meio em que vivem ou as frequências escolhidas tornam esses sons impercetíveis ao ouvido humano para além de servirem propósitos que não são para aqui chamados. O mesmo não se passa com muitas espécies de insetos entre as quais o som tem uma importância fundamental no sucesso reprodutivo. Mais à frente dar-lhe-emos o devido apreço.
A complexidade do canto das aves ainda maravilha e intriga os cientistas humanos que raramente conseguem imitar as grandes performances. Apesar de a tecnologia humana já produzir aparelhos capazes de gravar, reproduzir, amplificar e criar os mais diversos sons, nunca se aproximou da maravilha de um trinado de uma pequena ave como o rouxinol. Se bem que a voz entre as aves seja chamada a cumprir várias funções sociais e de segurança, é na área da reprodução - afastar rivais, atrair parceiras e comunicar com os pais para pedir comida - que ela se sobressai pela variedade e espetacularidade.
Podemos tentar especular sobre a razão por detrás do uso do canto para atrair potenciais amantes. Uma razão poderá ser porque é agradável e proporciona bem-estar ou suscita empatia, mas poderemos estar a entrar pelos campos pantanosos do antropomorfismo. Explicações mais prováveis são: trata-se de uma forma de chamamento com um muito maior alcance do que a visão, sendo possível mantê-la enquanto se permanece escondido dos olhares vorazes dos predadores. Só que isso não explica a variedade nem a complexidade do canto como critério de seleção pelas fêmeas. Se bastasse fazer-se ouvir, todos teriam um grito semelhante desde que suficientemente alto e que pouparia imenso nas aulas do conservatório. A razão pode ser sido no início evitar atrair fêmeas de espécies de cujo namoro não resultaria mais do que uns bons momentos de conversa. É essencial atrair as fêmeas férteis da espécie certa e para isso...

(Ed. Esfera dos Livros)


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