Dessa primeira vez, fomos a Elvas eu, o João Paulo e o Barrigas, que não era do nosso lar, era do Lar Augusto Polares, e o Bibi. Era um dia de semana e saímos da Casa Pia depois do almoço. É verdade, a essa hora do dia devíamos estar nas aulas. Mas não estávamos. Em vez disso, estávamos dentro de uma carrinha da instituição, conduzida pelo motorista da Provedoria e quando saímos do colégio Pina Manique ninguém nos perguntou onde íamos nem o que lá nos levava. Também é verdade que, segundo as regras da Casa Pia, sempre que uma viatura saía, era preciso escrever a matrícula. Mas não era isso que acontecia normalmente. Os carros entravam e saíam e umas vezes era feito o registo e outras não. E isto mostra bem como era fácil para o Bibi entrar e sair com alunos. Hoje, quando olho para essa época da minha vida, acho que muita gente dentro da instituição sabia ou, pelo menos, desconfiava de que qualquer coisa se passava. Mas foram muito poucos os que tiveram a coragem de levantar a voz e quando o fizeram, prejudicaram-se. Basta vermos o que aconteceu sempre com o Mestre Américo Henriques que, durante anos, apresentou queixas, quis defender os alunos e nunca conseguiu nada a não ser arranjar problemas pessoais que lhe dificultaram a vida. Os dirigentes da Casa Pia ameaçaram-no muitas vezes que o despediam se ele insistisse nas denúncias que fazia sobre os casos de abuso de menores dentro da instituição.
Voltando a essa primeira viagem a Elvas... Eu não sabia para onde íamos, mas percebi que tanto o João Paulo como o Barrigas sabiam e já lá tinham estado, pelas conversas entre eles durante a viagem. Tanto um como outro, por exemplo, perguntaram ao Carlos Silvino se iam ter com
um tal André Cunha, pessoa que, até aí, eu nunca tinha visto e não fazia ideia quem era.
Quando chegámos a Elvas aconteceu exactamente a mesma coisa que aconteceria depois, de todas as outras vezes que lá fui: o Bibi estacionou a carrinha numa rua atrás da casa e fizemos o resto do caminho a pé. Como quase sempre, também, foi a Josefina Silva que nos abriu a porta. A Josefina era uma senhora já de uma certa idade, de óculos, com o cabelo grisalho, quase branco e estava sempre bem penteada e bem arranjada. Tinha um aspecto completamento normal e tomava conta de crianças, no rés-do-chão da casa, era uma espécie de ama, creio eu. Nunca entrei nessa parte da casa, mas via os miúdos que lá estavam. Nós subíamos ao primeiro andar pela escada exterior da vivenda. A Josefina abria a porta sem nunca dizer nada e todos nós a cumprimentávamos com um beijo na cara. Tratávamo-la por «madame»: «Boa tarde, Madame!», «Está boa, Madame?» Acho que nem sabíamos o nome dela. Nós entrávamos na casa e ela desaparecia.
(…)
Lembro-me muito bem dessa casa. Ficava numa vivenda de três andares e era uma casa grande, com três quartos e uma sala. Fui lá muitas vezes e conheço-a de cor, apesar de depois, durante o processo, ter havido aquela história de dizerem que estávamos a mentir porque o interior da casa não era como nós tínhamos dito. A casa tinha uma entrada muito bonita, com um grande jarrão dourado, em que reparei logo nesse dia.
Entrámos todos para uma sala onde estavam o André Cunha, o Duarte Costa, o Paulo Horta e o Pedro Ramos - que eu já conhecia de vista porque ele ia muito à Casa Pia conversar com o Provedor, o Paulo Neves, e com o António Carvalho e, nessas alturas, chamavam sempre o Bibi para as conversas - sentados em sofás, de copo na mão, a conversarem normalmente, como se fossem todos amigos de longa data. Não sei dizer de que é que estavam a falar, não ouvi nada que me chamasse a atenção. A televisão estava ligada e havia também uma daquelas mesas baixas, à frente dos sofás, onde estava um pó branco. Não me lembro de muitos pormenores do que se passou a seguir e só tenho memória de estar a caminho do último quarto - local onde sempre fui abusado naquela casa - à frente do Pedro Ramos. Por isso, não sei dizer como foi decidido quem levava quem, nem como fui parar àquele quarto, com paredes cor-de-rosa, a janela sempre fechada e uma mobília antiga.
O Pedro Ramos é, de todos, aquele de quem tenho mais nojo e o que mais odeio. Foi sempre o que mais me maltratou. Era muito mais violento do que os outros e batia-me enquanto me p…….. Nesse dia, começou por me despir com violência e depois mandou-me fazer-lhe um b….. A seguir violou-me, em cima da cama, deitado por cima de mim, com muita força e, enquanto estava a violar-me, desatou a bater-me no ….. Foram momentos terríveis em que não só gritei como ouvi os gritos do João Paulo e do Barrigas nos outros quartos. Não me lembro se nesse dia me tapou a boca, mas é possível que sim.
Ele e o António Carvalho, quando eu gritava, costumavam tapar-me a boca com a mão, coisa que ainda me deixava mais aflito. Quando a violação e a pancada acabaram, o Ramos virou-se de costas para mim, para se vestir, e foi nessa altura que vi que tinha, na nádega direita, um sinal castanho mais ou menos com o tamanho de uma moeda de dois cêntimos. O famoso sinal que, depois, terá tirado. Eu também me vesti e quando já todos estávamos fora dos quartos, saímos sem mais conversas, de cabeças baixas e sem conseguirmos olhar uns para os outros.
Foi então, quando íamos a sair, que o Duarte Costa entregou um envelope ao Bibi. No caminho para Lisboa ninguém falou, viemos sempre em silêncio. E foi sempre isso que aconteceu de todas as outras vezes - e foram muitas - em que fui levado a Elvas pelo Bibi. Para lá, íamos na brincadeira e na conversa. Acho que era a maneira que encontrávamos para não pensarmos muito no que nos ia acontecer a seguir. Porque, como é evidente, tínhamos medo. Falo por mim, porque nunca conversei muito com nenhum dos meus colegas sobre os abusos de que éramos alvo. Mas eu ia sempre com medo do que estava para acontecer e imagino que os outros também se sentiriam assustados. Para Lisboa voltávamos calados. Vínhamos todos magoados e acho que, no fundo, tínhamos muita vergonha de tudo aquilo.
Muito poucos dias depois, talvez nem uma semana depois, o Bibi voltou a levar-nos, a mim e ao João Paulo, a Elvas. Depois da Josefina abrir a porta, entrámos na sala onde, desta vez, só estavam o André Cunha e o António Carvalho, que eu já conhecia por causa da conversa com ele, na Provedoria, em que prometeu que ia fazer de mim motorista da Casa Pia.
(…)
Fotografaram-nos e filmaram-nos várias vezes. Sozinhos e em grupo. Uma vez qualquer que o Bibi estava na Madeira, o Duarte Costa ligou-me e mandou-me ir ter com ele. Disse para eu apanhar o autocarro de Belém para o Rego e sair na penúltima paragem que, ao pé de um café,estava lá um amigo dele à minha espera. Fiz como ele me mandou e fui levado por esse homem, que não sei quem é, à casa da Av. das Forças Armadas. Quando lá cheguei, o Costa quis ter sexo comigo, mas resolvi fazer-lhe frente e disse-lhe que ia contar tudo à polícia se ele me tocasse. Ele estava sozinho e, dessa vez, não fez nada, deixou-me ir embora e até me deu dinheiro, fazendo-me prometer que não abriria a boca. Não me lembro exactamente quanto dinheiro me deu nesse dia, mas sei que foi muito. E mandou-me ficar calado. Mas, uns dias depois, voltou a ligar-me para eu lá ir e, dessa vez, estavam uns quatro ou cinco homens numa sala e o Duarte Costa levou-me para o quarto e ameaçou-me. Disse que tinha maneira de fazer constar na Casa Pia que eu era maricas e que ia dar cabo da minha vida. Nessa altura eu já o conhecia bem - até já sabia que ele tinha um sinal pequeno, aí com uns dois milímetros de diâmetro, no ….. - e tinha consciência de que ele era um homem muito poderoso e que tinha muito dinheiro, ou seja, podia passar da ameaça à prática e lixar-me num abrir e fechar de olhos porque eu era um miúdo sem defesa, valia menos que zero. Nesse dia não só me violou como me tirou fotografias, nu, de cócoras.
Como percebi muitos anos depois, já mais velho, estes pedófilos protegiam-se todos uns aos outros e muitos deles eram colocados em lugares estratégicos dentro da Casa Pia, para terem acesso mais fácil às crianças e jovens de que todos abusavam.
No Verão de 2000, por exemplo, houve umas cenas muito esquisitas numa casa que a instituição tinha em Colares. Fui levado para lá com o João Paulo e o Barrigas, numa Ford Transit conduzida pelo Carneiro (que tinha um cargo de direcção importante no Colégio Casa Pia, que também é da Casa Pia) e, quando lá chegámos já lá estavam o António Carvalho, o Paulo Neves e o Rui Santos (que também tinha uma função qualquer no Casa Pia e creio que era ele que tinha a Chave dessa Casa de Colares). Fomos para um quarto que tinha quatro camas e onde fomos abusados por todos eles, à frente uns dos outros.
(Editora livros d'Hoje)
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