OS DONOS DE PORTUGAL - Jorge Costa-Luís Fazenda-Cecília Honório-Francisco Louçã-Fernando Rosas

Usamos vários instrumentos para contar estas histórias: a análise económica para situar os principais períodos em estudo e o estudo dos condicionamentos políticos, mas também a reportagem sobre a emergência de alguns capitalistas e financeiros e dos seus negócios, como os mais recentes, Américo Amorim, Belmiro de Azevedo, BCP ou o capital angolano de José Eduardo dos Santos. Acrescentamos o estudo dos casos de transferência entre a política e os negócios, a descrição das privatizações que garantiram a modernização dos velhos grupos e as estatísticas dos movimentos bolsistas das grandes fortunas. Como verá ao longo do livro, há seis grandes conclusões que se afirmam. A primeira é que a economia portuguesa sempre foi um território de desigualdade extrema que se vem agravando: alguns grandes grupos financeiros e industriais dominam desde sempre, muitos deles com raízes na finança ou nas rendas que o Estado lhes assegura desde o século XIX. A eles se acrescentaram alguns, poucos, recém-chegados, por vezes erguendo-se sobre as fundações do poder financeiro já consagrado.
Em segundo lugar, estes donos de Portugal não são uma pequena seita isolada, face a um mar de empreendedoras pequenas e médias empresas que lutam por sobreviver. Seria uma posição de fraqueza, que não corresponde à realidade. Estas empresas e os seus empresários dominaram sempre mais de um terço do produto português e, assim, dirigem a rede social da acumulação de capital. O seu predomínio na economia e a sua parceria com o Estado articulam toda a economia, e a estrutura empresarial do país inteiro depende dessa liderança.
Em terceiro lugar, essa desigualdade é organizada pelo Estado, que é o produtor da burguesia portuguesa. É sempre o Estado, fosse ele ditatorial ou não, que protege, que selecciona, que ampara, que financia, que organiza o monopólio, que paga a renda. A importância estratégica do rotativismo político está aqui: é assim que se assegura a estabilidade desta ordem de desigualdade. O Estado é a estratégia. A quarta conclusão é que estas empresas dominantes nos últimos cem anos são propriedade de algumas famílias que são essencialmente a mesma família. O universo da burguesia portuguesa é endogâmico: as linhagens dos Lima Mayer, Mello, Ulrich, Orey, Espírito Santo, Roquette, Pinto Basto, Bensaúde e Champalimaud cruzam-se, como as de Burnay e Van Zeller. São todos aparentados por descendência e casamento, para não tratar de outras formas de aliança. Este mundo é muito pequeno. Numa palavra, a burguesia portuguesa é uma família de famílias, com os Mello no centro.
A quinta conclusão é que existe um processo assinalável de mobilidade social ascendente que permite o acesso restrito a este Olimpo da acumulação de capital e da governação da fortuna: é o de quem inicia carreira num partido ou no governo para depois entrar numa administração de empresa ou ser bafejado com um lugar de enriquecimento garantido.
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Vários destes novos nomes do capitalismo, que entram pelo século XX, não trazem título nem passado de peso, são produto das circunstâncias. Acompanharão a tendência do final do século XIX e da viragem para o XX: os bancos empenham-se na formação de companhias, que recebem do Estado exclusivos de exploração em sectores chave, dos transportes e comunicações à água, gás, electricidade; formam-se as companhias monopolistas nas colónias e as companhias industriais, surgem novas indústrias, dos cimentos aos super-fosfatos, e inverte-se a hegemonia do tabaco, afirmando-se o sector algodoeiro.
Chegada ao fim do século, esta burguesia exibe a sua riqueza na sociedade chique de então. Num Relatório da Comissão de Propaganda da Assistência Nacional aos Tuberculosos, em 1902, os nomes sonantes são sócios fundadores: o Conde de Burnay, os Palha, Bensaúde, Lima Mayer, Ferreira dos Anjos, José Maria dos Santos, Viscondessa de Valmor, Pinto Coelho, Sommer, Eugénio de Almeida, O'Neill, Pinto Basto, os cortesãos como o duque de Palmela, o duque de Loulé, marquês de Pombal, conde de Ficalho, conde de Sabugosa, e ainda os herdeiros do liberalismo como Pereira de Melo, Silva Carvalho e Lobo de Ávila, bem como os chefes políticos do momento (Ramos, 1994: 73). É a formação e o destino dessas fortunas que vamos acompanhar.
É este circuito restrito de capitalistas comandados por Burnay que nos finais do século XIX controla a Companhia dos Tabacos: Valmor é presidente da mesa da Assembleia Geral, Isidoro Viana é presidente do conselho de administração que inclui o filho de José Maria Eugénio de Almeida, o conde Daupias, Eduardo Burnay e Eduardo Pinto Basto; o recém-chegado Jorge de Mello, filho do cortesão Sabugosa, é vogal do conselho fiscal da empresa, não esquecendo o poder das empresas financeiras como a Fonseca, Santos & Viana e a Burnay & C.3 na companhia (Faria, 2007: 30).
Têm casa em Sintra, e até utilizam o comboio nas deslocações a Lisboa, ocupam as avenidas novas com os seus palácios e inscrevem o seu poder em todos os espaços da sociabilidade, da cultura, do desporto. Têm um apetite inusitado pelos cargos políticos. Burnay não descansou enquanto não conseguiu chegar a deputado, e diversos destes nomes o foram, membros dos executivos das câmaras municipais, governadores civis, entre outros.
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… seria precipitado retirar de uma leitura superficial, ou puramente quantitativa dos (“destes” no original) dados qualquer conclusão sobre a irrelevância da exploração colonial para a economia portuguesa deste período.
Em primeiro lugar, há que ter em conta as razões económicas e sociais estruturais que participam na génese do acelerar da viragem para a África em fins do século XIX: uma indústria que se desenvolveu significativamente, beneficiando da conjuntura de crise financeira nacional e internacional, mas a que faltam um mercado nacional que viabilize o seu crescimento rápido e a capacidade de concorrer eficazmente nos mercados externos. Para esta indústria, de alguma forma bloqueada em termos nacionais, o mercado colonial administrativamente protegido e assegurado, surge como a «muleta» indispensável não só ao escoamento dos seus excedentes (incolocáveis no estreitíssimo mercado interno e na maioria dos internacionais) como, dessa forma, à sobrevivência de grande parte dos seus sectores. O mercado colonial era, nestes termos, um prolongamento vital do mercado interno, seguramente para a têxtil algodoeira - a maior indústria do país e a grande beneficiária das exportações coloniais -, mas também para largos segmentos da pequena e média indústria, apesar da relativa pequenez quantitativa dos volumes e valores das suas exportações em termos globais.
O mesmo se diga relativamente ao excedente da produção de vinhos comuns, que perdeu definitivamente o grosso dos mercados externos com a crise das exportações agrícolas do fim do século XIX: as colónias passam a significar a única hipótese de colocar os seus excedentes, produto geralmente de má qualidade - o «vinho para o preto» - e a preços exorbitantes. Mas com isso asseguravam a manutenção de uma larga percentagem da vitivinicultura nacional, um dos pilares, como sabemos, da economia agrícola.
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. . . há que ter presente o facto de todos os grandes grupos económicos mais ou menos familiares, os núcleos precursores dos monopólios financeiros, terem fortes interesses na exploração e no comércio colonial
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A «regeneração» contra a «decadência» era a aposta de Antero, Eça, Oliveira Martins Teófilo Braga, Manuel de Arriaga, entre outros, aposta que o liberalismo de consenso e silêncio não podia permitir. A tribuna das ideias e correntes do século para a «transformação social, moral e política dos povos» era uma ousadia que cabia ao ministro e Duque de Ávila cortar pela raiz, acabando com as conferências das segundas-feiras.
Filomena Monica pôs água na fervura sobre a repressão do poder político, argumentando que nem os promotores das Conferências do Casino foram «inocentes» nem Ávila foi um «Caligula» (Monica, 2001: 1010). Pois Eça não tinha andado a fazer convites à «revolução, sob a sua forma cientifica»? E Adolfo Coelho não atacara violentamente a Universidade de Coimbra e a sua impossibilidade de fazer avançar a ciência, e não clamara: «Uma reforma radical não é talvez possível. Toda a reforma não radical é inútil»? (ibid.: 1017).
Mas Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queirós, os apóstolos da transformação, acabaram «vencidos da vida». E sobre esta condição, os «vencedores» não se pronunciam. Eça esclareceu que «para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou, mas do ideal intimo a que aspirava»... Tal como o soneto de Antero, «Vencidos», dá conta do trabalho inglório de três cavaleiros, que acabarão por se sumir na noite e no silêncio: «Quando há de vir o dia da justiça? / Quando há de vir o dia do resgate? / Trahio-me o gladio em meio do combate / E semeei na areia movediça/ As nações, com sorriso bestial, / Abrem, sem ler, o livro do futuro, / O povo dorme em paz no seu monturo, / como em leito de purpura real» (Quental, publicado por Martins,1886:39)
Antero afirmava no discurso de 27 de Maio de 1871 que a decadência era a única constante de três séculos de história nacional. A Antiguidade, a Idade Média, a Renascença tinham sido marcadas pela grandeza e originalidade que o século XVII mataria: «Nunca povo algum absorveu tantos tesouros, ficando ao mesmo tempo tão pobre!»

(Nota de G.M : A escolha de um dos muitos nomes analisados neste obra foi aleatória. Teria de escolher um e recaiu sobre uma figura bem conhecida)

4.5.2. 1985-1987: acumular na Bolsa
De facto, desde os anos 80 que Belmiro tem na Bolsa a sua segunda casa. A sua empresa define-se em 1984 como uma federação de PME, mas são as mais-valias especulativas que permitirão a Belmiro de Azevedo a rápida acumulação de capital que o levará ao lugar de homem mais rico de Portugal em meados dos anos 2000. Só com operações bolsistas, grupo consegue encaixar entre 1985 e 1987 perto de 30 milhões de euros (DN, 27.02.20û6i. Logo em 1985, com a estreia no mercado bolsista português, o capital social do grupo passa de 4 para 18 milhões de euros. Em 1986, as OPV da Novopan (aglomerados) e da sociedade financeira CISF levam a Sonae a um exercício com quase 7 milhões de euros de receita extraordinária. Pouco depois, a colocação em Bolsa de apenas 25% da SIAF (aglomerados, comprada por um milhão de euros) rende dois milhões. O ano de 1986 termina com a abertura do Continente da Amadora, financiado em larga medida pela actuação de Belmiro na Bolsa.
No rescaldo do crash de 1987, aproveitando os incentivos públicos à cotação das empresas em bolsa (P, 04.03.1995), a Sonae faz capa de jornais com uma grande operação bolsista. Nada menos que uma OPV conjunta de sete empresas, entre as quais os supermercados Modelo Continente, a Publimeios, a Siaf e a Agloma (aglomerados), a Selfrio (ar condicionado), a Viacentro (imobiliário) e a Ibersol (restauração e hotelaria). As vendas são realizadas com preço fixo, contrastando com o tradicional leilão. Segundo o DN, o esquema visa os benefícios fiscais às empresas que vendessem 25% de acções próprias. Dado o limite legal que proibia uma sociedade de comprar mais de 10% de acções próprias, Belmiro compra precisamente 10% ao seu próprio grupo e distribuiu os restantes 15% gratuitamente entre as próprias empresas. O grupo encaixa 20 milhões de euros. Em Dezembro de 1987, Belmiro apresenta argumentos em reuniões com a supervisão e com o próprio governo. Mas meses depois, Miguel Cadilhe - já com polémica na imprensa e com a demissão de um Secretário de Estado, Carvalho Fernandes (Tesouro) - decide investigar os termos das operações. O processo judicial demora longos anos e termina arquivado. Mas nem todas as relações de Belmiro no gabinete ministerial arrefecem. Anos mais tarde, o outro Secretário de Estado de Cadilhe no momento das sete OPV, Elias da Costa, será administrador da Modelo Continente. Para Belmiro, o processo judicial foi «um problema menor - um bom gesto: deve fazer uma interpretação ousada da lei» (DN, 27.02.2006).

4.5.3. 1993-2003: muita diversificação, metade do rendimento é bolsista
A década de 1990 começa com o lançamento do jornal Público e a abertura da fábrica CIAF MDF de Mangualde. Em 1991, abre o CascaisShopping. Em 1995, a Sonae lança várias apresas de retalho especializado, como a Modalfa (vestuário e acessórios) e a MaxMat (bricolage e materiais de construção). Em 1996, é lançada a Worten e um ano depois abre o maior centro comercial da Península Ibérica, o Colombo. É também lançada a Vobis (informática) e a Sport Zone. No final da década, é lançada a Optimus, com a participação directa do Estado (IPE, 5%) e de empresas de capital público (consórcio EDP-Transgás-Gás (de Portugal, 25%). Também neste ano, a Sonae abre o NorteShopping e adquire a Portucel, com o objectivo de liderar o sector da produção de celulose na Península Ibérica. O ano de 1999 fica marcado pela abertura do Centro Vasco da Gama, pela aquisição da Soporcel (pasta de papel) e pelo lançamento da Clix e da Novis. Destaque ainda para a internacionalização da Sonae Sierra, corn entrada em Espanha, Grécia e Brasil (neste último, com 20% de capital do IPE) e depois na Alemanha e em Itália.
Na privatização do Banco Totta & Açores, Belmiro de Azevedo faz o seu primeiro grande investimento no sector e chega a controlar 10% da instituição. No entanto, perante a guerra accionista que se travou no Totta, de que o banco espanhol Banesto começou por sair vencedor, Belmiro vende a sua posição, ganhando cerca de 15 milhões de euros. Perdido o Totta e depois o BPA (sempre com importantes mais-valias), Belmiro lança em 1997 o banco Universo. Com a sua integração no BPI, a Sonae terá durante vários anos uma quota de 4% na instituição dirigida então por Artur Santos Silva. A presença da Sonae no BPI lembra a dos accionistas do BCP - é um pesado dono-devedor do próprio banco. Ao Ponto de, em 2001, quando Belmiro prepara um aumento de capital de 100 milhões de contos na Sonae, o BPI lhe fechar a porta, considerando-se já demasiado exposto ao grupo para realizar novos empréstimos. Curiosamente, será o BCP a tomar firme este aumento de capital (FN, 08.2001).
Em 2002, a Sonae abre o maior centro comercial da América Latina, o Parque D. Pedro, no Brasil. Em 2004, vende os seus 25% da Portucel/Soporcel, depois de perder o processo de privatização para Pedro Queiroz Pereira. As mais-valias são então estimadas em cerca de 90 milhões de euros, que se somam aos 900 milhões de euros de resultados extraordinários acumulados nos dez anos anteriores (dividendos e vendas de participações). Um equivalente aos resultados líquidos atribuíveis à própria Sonae nesse período (Ex, 05.2004). Na década dourada de 1993-2003, metade do que Belmiro ganhou veio da compra e venda de acções.
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Desde 2007 que a presidência da SONAE SGPS é de Paulo Azevedo, filho de um engenheiro que certo dia recebeu um empréstimo milagroso
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4.7 Isabel dos Santos, o nome do dinheiro angolano
Entre os capitais valorizados pelas privatizações de monopólios naturais ou de sectores estratégicos há um investidor que merece ser destacado, porque é uma força recente na economia portuguesa: o presidente angolano, José Eduardo dos Santos. Dos Santos transformou-se em poucos anos num dos maiores investidores privados em Portugal, mesmo que através dos dinheiros públicos Angola. É o novo capital da era Sócrates: de Angola, e em força.
A filha do Presidente angolano, Isabel dos Santos, representa e dirige os principais investimentos angolanos em Portugal. O capital angolano detinha, nos finais de 2009, aplicações de cerca de 1800 milhões de euros, ou seja, 3% da capitalização do PSI20 ou 1% do PIB português. A sua influência, no entanto, é muito mais vasta.
Esses investimentos são controlados por duas únicas empresas angolanas: a Sonangol, a empresa pública dos petróleos, e a holding financeira que representa os interesses de Isabel dos Santos, a Santoro. Em muitos casos agem em consonância, com a filha do presidente a representar directamente a petrolífera. Ou seja, ambas as empresas representam o poder do presidente José Eduardo dos Santos.
Esse investimento foi rápido. Segundo as contas da consultora A.T. Kearney, entre 2005 e 2008 o investimento angolano em Portugal foi de 791 milhões de euros, enquanto no mesmo período o investimento de empresas portuguesas em Angola foi menos de um décimo, 75 milhões. E foi realizado através de parcerias, sobretudo com Amorim, com os Espírito Santo, a PT, a Mota-Engil e a CGD.
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O atraso, a modernização conservadora, a cristalização de relações políticas fechadas no rotativismo partidário, a garantia pelo Estado de todos os processos de acumulação e distribuição entre as fortunas, entregando a uns os petróleos, a outros a electricidade, a estes as auto-estradas, àqueles as parcerias público-privado nos hospitais, tudo isso demonstra como a burguesia portuguesa falhou historicamente a modernização, hostilizou a democracia, detestou o desenvolvimento e garantiu a desigualdade. Os donos de Portugal são o principal problema histórico de Portugal.
(Edições Afrontamento)

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