O curativo durou meia hora e, quando saiu da cela, o médico foi direito ao gabinete de Aniceto Silva. O inspector ditava um ofício à secretária enquanto girava em círculos pensativos diante do ar condicionado, mas interrompeu a tarefa para atender o visitante.
“Então o seu protegido?", gracejou. "Está finório?"
“Ó inspector, aquela cela não tem condições para uma pessoa
em convalescença."
O homem da PIDE encolheu os ombros, como se declinasse
responsabilidades.
“Isto não é um hospital, doutor. Nem um hotel."
“Mas nestas condições a ferida vai infectar outra vez. Aliás, a infecção já está a começar. Se eu não o tivesse visto agora, a coisa desenvolvia-se e era uma chatice."
Aniceto Silva apoiou-se noutra perna, num movimento subtil a exprimir alguma impaciência.
“Iá, mas está fora de questão o gajo voltar para o hospital", rosnou. Depois pareceu absorto, como se reconsiderasse. "A não ser que o Doutor viesse cá vê-lo de dois em dois dias..."
Deixou a ideia pairar, dando a entender que tinha acabado de apresentar uma solução e que cabia ao seu interlocutor agarrada. O médico percebeu a intenção.
"Isso era uma possibilidade", conformou-se José. "Ou venho eu ou mando alguém. Ele precisa de mudar de pontos e de ligaduras."
O inspector deu-lhe uma palmada no ombro, como se tivessem acabado de fechar um acordo.
"Então está combinado", exclamou. "Acha que consegue pô-lo a caminhar numa semana?"
"Numa semana?", admirou-se o médico. "Nem pensar! Ele vai precisar de pelo menos um mês de convalescença e mais um mês de fisioterapia para recuperar o músculo, que já está a perder com a inactividade. Só depois poderá andar normalmente."
A língua do homem da DGS fez um estalido contrariado.
"Que merda! Dois meses para recuperar? Tem a certeza?" "Dois meses, se não forem mais", insistiu o médico. Carregou as sobrancelhas, a curiosidade a espicaçá-lo. "Mas, desculpe lá, para quê tanta urgência?"
"Tenho de entregar o tipo aos comandos." Indicou com a mão um mapa que tinha no gabinete. "Queremos que ele os leve para identificar bases, zonas de passagem e pontos de abastecimento. Mas isso tem de ser feito rapidamente, porque senão os turras mudam as rotas e a informação fica desactualizada.”
"Se é para isso, desengane-se", atalhou José com ênfase. “Ele vai precisar de tempo para recuperar."
Aniceto Silva abriu os braços, numa postura de frustração, e respirou fundo, o olhar desagradado a perder-se no corredor. "Então o que faço com o tipo?"
Era uma questão que ultrapassava o director do hospital. "Bem, não sei. O que ia fazer com ele depois de o entregar aos comandos?"
O inspector premiu os lábios e olhou para o seu interlocutor como quem acha que está a falar com um idiota.
"Ó doutor, ele ia e já não voltava."
"Não voltava como?"
"O senhor não sabe que um turra que é entregue aos comandos nunca mais regressa?”
A declaração foi de tal modo perturbadora que o médico pensou ter ouvido mal.
"Perdão?"
O chefe distrital da DGS revirou os olhos e respirou fundo, quase enervado com tanta ignorância e ingenuidade.
"Estamos em guerra, doutor", disse num tom pedagógico, como um professor primário a explicar o abecedário a uma criança. "Quando um turra vai com os comandos, não volta. Depois da operação o gajo não passa de um peso-morto. Se o trouxerem para aqui, o que fazemos dele? Mandamo-lo de férias rara a Beira? É uma chatice a mais que para aí temos. Por isso os comandos limpam-lhe o canastro, escrevem no relatório que ele tentou fugir e o caso fica logo resolvido."
José teve dificuldade em acreditar no que ouvia e permaneceu um instante sem saber o que pensar ou dizer. Seria brincadeira? Mas o tom convicto com que o inspector falara tirou-lhe as dúvidas.
"Eles podem fazer isso? Não é ilegal?"
Aniceto Silva encolheu os ombros, como se o argumento fosse absolutamente irrelevante.
"Oh, doutor!... Há tanta coisa ilegal nesta vida! Estamos em guerra, não estamos? Numa guerra estas coisas acontecem!..."
Inquieto e já algo alarmado, o médico apontou com o polegar para o corredor, ao fundo do qual se encontravam as celas, incluindo aquela onde haviam fechado o guerrilheiro de Cazula.
"O que lhe vão fazer?"
O inspector suspirou, resignado.
"Para já, nada. Teremos de aguardar os dois meses para o entregar aos comandos. Que remédio!"
"Mas isso significa que o vão matar!..."
O homem da DGS abriu as mãos, indicando que a questão o ultrapassava.
"Já lhe disse, é a guerra."
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