Enquanto Katie andava a fazer as compras, Alex ficou de volta da caixa registadora, a espreitá-la pelo canto do olho. Arrumou o balcão, deitou uma olhadela a Josh, viu o desenho que Kristen estava a colorir, tornou a arrumar o balcão, fazendo o possível por se mostrar ocupado.
Katie mudara nas últimas semanas. Tinha um leve bronzeado de Verão, e a sua pele apresentava uma frescura radiosa. Começava também a mostrar-se menos assustadiça ao pé dele, sendo hoje um exemplo claro disso mesmo. Era verdade que não tinham feito um grande furor com a sua conversa animada, mas sempre era um princípio, não era?
Mas o princípio de quê?
Logo desde os primeiros tempos, Alex pressentira ela se encontrava numa situação difícil, e a sua reacção instintiva fora dispor-se a ajudá-la. E, apesar do cabelo mal cortado e das roupas desenxabidas, não havia dúvida de que era bonita. Todavia, fora ao ver Katie a consolar Kristen, depois de Josh ter caído à água que se sentira genuinamente comovido. E a maneira como a filha reagira a Katie ainda o comovera mais. Kristen agarrara-se a ela como uma criança se agarra à própria mãe.
Alex sentira um nó na garganta que lhe recordara que tal como ele sentia a falta duma mulher, os filhos também sentiam a falta de uma mãe. Sabia que ambos sofriam com a perda dela c fazia tudo ao seu alcance por os compensar, mas fora só no momento em que vira Katie e Kristin juntas que compreendera que a tristeza era apenas uma das faces da moeda. A solidão dos filhos era um reflexo da sua própria solidão.
Censurou-se intimamente por só então ter dado por isso.
Quanto a Katie, ela representava um mistério para ele. Havia elemento em falta, algo que o vinha a atormentar. Deixou-se ficar a observá-la, interrogando-se quem seria de facto e o que a motivara a vir para Southport.
Achava-se ao pé das vitrinas frigoríficas, um sítio onde era a primeira vez que a via, a examinar os artigos através do vidro. Tinha o sobrolho franzido e, enquanto decidia o que haveria de comprar, Alex reparou que contorcia os dedos da mão direita em volta dos da esquerda, a brincar com um anel que não existia. O gesto despertou nele algo familiar e havia muito esquecido.
Era um hábito, um tique em que reparara ao longo dos anos em que trabalhara na DIC e que por vezes observara em mulheres que haviam sido vítimas de maus-tratos e estavam desfiguradas. Costumavam ficar sentadas diante dele, a remexer nas alianças de forma compulsiva como se fossem algemas que as acorrentavam ao marido. O mais das vezes, negavam que este as tivesse agredido e, nas raras ocasiões em que admitiam a verdade, em geral insistiam em que a culpa não fora deles, que tinham sido elas a provocá-lo.
Justificavam-se dizendo que tinham queimado o jantar, ou que não tinham lavado a roupa, ou que o marido tinha andado a beber. E, de todas as vezes sem excepção, estas mesmas mulheres juravam a pés juntos que aquilo nunca antes sucedera e diziam a Alex que não queriam apresentar queixa do marido porque a carreira deste ficaria destruída. Era do conhecimento geral que o Exército não se compadecia dos soldados que maltratavam as esposas.
Algumas havia, porém, que assumiam outro tipo de atitude – pelo menos a princípio — e que decidiam apresentar queixa. Alex abria então um processo e ouvia-as queixarem-se de que a burocracia parecia ser mais importante que a detenção efectiva. Mais importante que fazer cumprir a lei. Alex elaborava mesmo assim o relatório e lia-lho antes de lhes pedir que assinassem. Era neste momento que a coragem por vezes lhes faltava, e ele vislumbrava a mulher amedrontada que se escondia por detrás da indignação aparente. Muitas acabavam por não assinar, e aquelas que o faziam mudavam rapidamente de ideias logo que o marido era convocado. Estes processos tinham seguimento independentemente da posição que a mulher assumisse. Todavia, quando mais tarde a mulher se recusava a depor em tribunal, o marido escapava quase sempre sem castigo.
(...)
Ainda com a sensação de se achar mergulhada num sonho, Katie encaminhou-se para sua casa. Sentou-se na cadeira de baloiço e fixou o olhar no chalé de Jo, a perguntar-se se não teria perdido o juízo pôr completo.
Sabia que a criação de amigos imaginários era frequente no caso das crianças, mas ela já não era uma criança. Embora também não houvesse dúvida de que chegara a Southport sob grande tensão. Sozinha e sem amigos, em fuga e sempre de atalaia, aterrorizada com a ideia de Kevin se poder estar a aproximar... Quem não ficaria ansioso? Mas seria isso motivo suficiente para justificar a criação dum alter ego? Talvez houvesse psiquiatras que dissessem que sim, mas Katie não podia ter a certeza.
O problema punha-se dada a sua relutância em acreditar nisso. Não acreditava porque tudo se lhe afigurara tão... real. Lembrava--se das conversas que travara com Jo, ainda lhe via as expressões, ainda ouvia as suas gargalhadas. As recordações que Jo lhe deixara pareciam-lhe tão autênticas como as que guardava de Alex. Apesar de, por aquele andar, o mais certo seria ele não ser autêntico, não passar também dum produto da sua imaginação. E o mesmo se aplicaria a Kristen e a Josh. O mais provável seria ela estar nesse momento presa a uma cama num manicómio qualquer, completamente perdida num mundo da sua própria criação. Abanou a cabeça, mais frustrada e confusa que algum dia se sentira...
Para além de que havia ainda mais qualquer coisa a incomodá-la, qualquer coisa que não conseguia identificar. Estava a esquecer-se de qualquer pormenor. Um pormenor importante.
Por muitas voltas que desse à cabeça, não era capaz de perceber do que se tratava. Os acontecimentos dos últimos dias tinham-na deixado exausta e nervosa. Ergueu o olhar. O crepúsculo estendia--se agora no céu, e a temperatura estava a descer. Em volta das árvores, a neblina começava a formar-se.
Katie desviou a atenção da casa de Jo — e haveria de se referir a ela sempre assim, independentemente do que isso pudesse dizer acerca da sua sanidade mental —, pegou na carta e deu-lhe uma vista de olhos. O envelope não tinha nada escrito.
Aquela carta transmitia-lhe uma sensação inquietante, porquê, não sabia ao certo. Talvez isso se devesse à expressão de Alex no momento em que lha entregara... Intuitivamente, Katie percebera que o conteúdo era não apenas sério, como também representava muito para Alex, e admirava-se de ele não ter feito nenhum comentário a seu respeito.
Contudo, não tardaria a anoitecer, e ela sabia que o tempo se estava a esgotar. Virou o envelope ao contrário e abriu-o. À luz do crepúsculo, fez deslizar um dedo pelo papel amarelo e em seguida desdobrou as folhas. Por fim, deu início à leitura.
A mulher que o meu marido ama,
Se ler estas palavras lhe causa uma sensação de estranheza, por favor, acredite em mim quando lhe digo que a minha própria estranheza ao escreve-las não terá sido menor que a sua. A verdade, porém, é que esta carta não tem nada de usual. Tenho tanto para lhe dizer, tanto para lhe contar, e, quando peguei na caneta e no papel, parecia-me que tinha as ideias tão claras, Agora, no entanto, dou por mim hesitante e sem saber por onde hei-de começar.
Posso começar dizendo o seguinte: a experiência ensinou-me que, na vida de todos nós, há um momento indiscutível de mudança, um conjunto de circunstâncias que, subitamente, vem alterar tudo. Para mim, esse momento aconteceu quando conheci o Alex. Embora eu não saiba quando ou onde irá ler esta carta, sei que isso significa que ele está apaixonado por si, que deseja partilhar a vida consigo e, quanto mais não seja, isso será algo que nós as duas haveremos de ter sempre em comum...
O meu nome, como provavelmente já sabe, é Carly, embora, durante grande parte da minha vida, os meus amigos me tenham tratado por Jo...
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