DIÁLOGOS PARA O FIM DO MUNDO - Joana Bértolo

O EPÍLOGO DE BERTHA
ONDE SE SOLTA A ARCA DAS
MEMÓRIAS

O epílogo é aquela parte do texto onde se encontra a conclusão ou o remate. Navegamos rumo ao fim.

Não sejamos adeptos de conclusões, tão pouco de remates. A vida chuta-se a si mesma, e se for preciso a bola está nos balneários enquanto toda a gente em campo. Não há que tentar concluir nada, há que ter jogo de cintura e saber ir fintando o que vai vindo. É o jogo da vida onde é golo e ninguém aplaude, onde o prolongamento vem logo à página noventa e um. Onde ninguém sairá vitorioso desta travessia transatlântica. O oceano joga em casa.

Na grande-área marítima, uma trompa exala um cinzento grave e ampliado som. Bertha inquieta-se com o facto de ninguém prestar reverência à orquestra que inicia a sua partitura com tão eloquente chamada.
- Será que as pessoas não ouvem?
As pessoas, incluindo os seus filhos, as suas filhas, correm de um lado para o outro como se o barco estivesse prestes a partir. O barco está prestes a partir. Mas Bertha só está entretida com a música:
- Filha, há uma orquestra, no navio?
- Ora essa agora mãe, uma orquestra, num barquinho destes! Aqui há batatas e peixe-seco, tecidos e mantimentos. A música está a tocar dentro de ti.
- É tão bonita, filha. Não ouves?
- Não, mãe. É o quê, violinos?
- Não. É uma tuba. Ou uma trompa. É grave e forte
e
O cargueiro estacionado ao lado ressoa uma vez mais e uma última vez o apito de aviso aos outros, aquele que diz,
- Agora vou mesmo sair.
O som que produz preenche tudo. As pessoas que falam tomam uma pequena pausa no que estão a dizer, os marinheiros recuam ligeiramente o gesto. Karenyina entende o equívoco da mãe e sorri, meiga:
- Afinal ouço, mãe. É bonito, sim.
Karenyina enternecida com a candura da mãe, Bertha enternecida com a suavidade do Teivath ao abordar a água, eu enternecida com a afinidade entre elas, mas nada mais se enternece connosco. Só o reboliço de tudo em seguir caminho, a urgência não se enternece com nada.
Tudo se mexe. Toda a matéria inerte e preguiçosa se faz ao dia, se faz ao mar, se faz à vida, que só a morte é certa, que só a morte acerta.
Bertha, a velha e gasta Bertha, parece a única coisa imóvel e quieta naquela barca, quando tudo, mesmo tudo em sua volta se dança em frenesi.
O som da trompa fá-la recordar a sua infância de Alpes suíços, onde, entre bicadinhas de queijo e chocolate, se apreciavam os compositores alemães. Benjamin, o seu irmão mais velho era um exímio tocador. Ela ia sempre vê-lo tocar à orquestra de Lucerna. Lembra-se vividamente do seu corpo magro e indistinto ganhando possança no abraço daquele octópode sonoro, aquele tentáculo cilíndrico arqueado sobre si mesmo.
O seu irmão Benjamin era um virtuoso. Bertha era somente uma entusiasta. O que ela fazia de melhor com um instrumento era somente desfrutar dele. Não tocá-lo, não ouvi-lo. Apenas celebrar a sua existência, e dar sentido ao empenho do intérprete. Os pais e os tios lamentavam a sua total inépcia para a música, que Bertha não tinha ouvido, diziam eles (47), e relembra por atacado as infrutíferas tardes com o irmão, quando este tentava ensinar-lhe a distinguir graus cromáticos.
Para ela, tudo era um único e prolongado dó sustenido, reiterado em ritmo regular, como o apito de um barco.

Era essencial saber tocar um instrumento naquele mundo suíço e pequeno-burguês onde crescera. Era igualmente importante saber bordar, saber distinguir as ervas para as tisanas certas, saber pintar, mas apenas certos temas de certas formas, um virtuosismo completamente desligado de uma expressão pessoal. Era importante ser fluente em francês e em latim, e saber falar eloquentemente sobre o enredo do "Ring des Nibelungen" de Wagner, ou saber declamar Victor Hugo(48). Naquele mundo onde crescera, uma mulher existia para cumprir este menu de competências. Para ser a mais competente em atrair o mais incompetente dos maridos. A quem então deveria respeito e obediência, não obstante já ter lido e pensado o suficiente, exposta a cultura e cogitação suficientes, para distinguir o barão do lacaio. Bertha achava os lacaios mil vezes mais estimulantes, e essa coisa da subjugação feminina não lhe corria no sangue, por muito que estivesse em voga, por muito que fosse da época, por muito que não ocorresse ainda a ninguém pensar de outra forma. Ela não pensava, sentia.

E foi com esse sentimento, duas pernas e uma pequena trouxa, que se fez ao mundo. Ao fim do mundo suíço pequeno e burguês, mas ao início do mundo restante. Trocou o seu barão por um vagão, de animais e comida e batatas e cheiros que achava que lhe ficava bem desconhecer, assim achando-os exóticos. A caminho da Alemanha, julgava ela, mas da Rússia, sabia ele: e quando para ela, perdida, para ele, achada.
Foi assim Mykhaylo e Bertha, na retrospectiva mais limpa que consegue, sem a influência das muitas versões de Karenyina.
Por que se lembrava agora ela de tudo isto?

Porque é o epílogo, lá está.

47* Mas tinha coração, pensava ela.
48* "Passamos metade das nossas vidas à espera daqueles que iremos amar, e a outra metade a deixar aqueles que amamos."
(Caminho)

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