O PARADOXO DO AMOR - Pascal Bruckner

A derrota da fantasia

Pergunta fundamental: será que nós escolhemos mesmos quem são os nossos parceiros, será que não estamos programados quando pensamos que estamos a agir racionalmente? Há dois tipos de discursos que levantam a dúvida sobre a gratuitidade das tendências: o da sociologia que vê nisso a confirmação de uma casualidade de classe e o da psicologia que o considera um sintoma resultante de tensões por resolver com os nossos pais. Mas podemos esmiuçar até ao mais ínfimo pormenor as nossas escolhas pessoais, que isso não impede que acabemos sempre por escolher, mesmo no seio de um determinado contexto, uma dada pessoa em vez de uma outra, e sem que para isso haja necessidade de uma intervenção de um factor externo. Temos uma autonomia de decisão em relação aos nossos condicionamentos íntimos ou sociais. É possível que a nossa escolha recaía até em pessoas inesperadas, elementos muito afastados da nossa cultura, do nosso meio. Mais interessante do que esta questão bizantina é a da predestinação posterior: a liberdade suscita logo um determinismo. Os amantes não podiam deixar de se encontrar, estavam destinados um ao outro, antes mesmo de se cruzarem. O acaso que os colocou frente a frente, num determinado dia, numa determinada hora, passa a ser considerado uma fatalidade: é impensável que isso não acontecesse. Tudo menos esta horrível desconfiança: se não tivesses sido tu, teria sido outro(a)! Entre as dezenas de pessoas que outra conhece, o rosto amado tinha de se impor como o gume de uma navalha. É ele e mais ninguém: êxtase e tremor.
Há pessoas que ficam tão perturbadas com o desejo dos outros em relação a elas que cedem menos por vontade do que com o intuito de corresponderem ã homenagem que lhes é dirigida. Ao envelhecer podemos reivindicar gostos muito diferentes, mostrarmo-nos menos sensíveis à quinquilharia estética do que constitui padrão, aceitar como nossos desejos todo o tipo de seres humanos: preferir o encanto à beleza, o sensual à doçura, a diferença cativante à majestade soturna. O amor cultiva as pequenas imperfeições encantadoras, os defeitos comovedores que seduzem mais do que um corpo impecável. Não devemos censurar as nossas preferências, mas podemos enriquecê-las, multiplicá-las. São elas que nos prendem a uma realidade, mas também são elas que nos impõem limites. O amor é igualmente a derrota da fantasia, dos atributos puramente plásticos. Podemos ficar enfeitiçados por homens e mulheres que não faziam parte do nosso «género», alargar o leque das nossas referências. Atente, por exemplo, nesta estranha contradança: na altura em que os Europeus, os Australianos, os Norte-americanos estão bronzeados e põem em perigo a sua saúde por insistirem estar horas a fio ao Sol, os Africanos, os Chineses, os Indianos, os Filipinos pensam na possibilidade de branquear a sua pele, correndo o risco de destruírem a sua pigmentação e virem a sofrer de doenças graves. Predomínio dos preconceitos coloniais, contaminação do modelo americano? Não há certezas. Mas é preferível que cada parte do mundo sonhe ser a outra.

O prosaísmo passional

O aforismo tão espiritual de Lichtenberg — «o amor é cego, o casamento devolve-lhe a visão» — já não é inteiramente verdadeiro: nos idílios actuais, o encantamento afectivo coabita frequentemente com escrúpulos de notários que circunscrevem os seus territórios respectivos, dividem entre si gavetas e armários, distinguem o teu do meu. Os pombinhos são também actores económicos quase em igualdade que entram para a vida em comum delimitando enclaves bem precisos, dormindo em quartos separados para não terem de ouvir o companheiro ressonar nem de tolerar as suas insónias (o sono é bem mais íntimo do que o sexo) ou as suas exigências eróticas inusitadas. Talvez não vivam no mesmo apartamento, o que supõe desafogo económico, poupando um ao outro as imposições da coabitação, e conservem uma inteligente utopia da distância. Não é justo ver nestes procedimentos apenas uma queda num materialismo grosseiro. Actualmente, a prudência está presente desde o primeiro instante, tão grande é o medo de ser devorado. Zelar pelo espaço vital é prevenir a asfixia; é evitar que a ninharia doméstica contamine o universo dos afectos. Nas zonas de pesca, ao que parece, quanto menos espaço os peixes têm, menos se reproduzem. A proximidade torna-os avessos â procriação. Também o bom entendimento é aquele que escapa à simbiose: se a ausência extingue os entusiasmos passageiros, a presença excessiva mata as paixões mais fortes. Os amantes morrem por estarem demasiado perto, falta-lhes a distância adequada para comunicarem. Eis a imagem-tipo do casal contemporâneo: duas pessoas abraçadas na rua ou sentadas à mesa de um restaurante e que falam cada um no seu telemóvel com um terceiro. É a delícia de estar juntos e separados. Mas basta que uma conversa se prolongue indevidamente e o equilíbrio rompe-se. A assiduidade assente no afastamento, a proximidade obtida pela distância entre eles: os amantes caminham à beira do abismo que separa estas duas vertentes e podem cair a qualquer instante.
A vida em comum não é tanto uma solidão ultrapassada mas uma ligação interrompida. Mesmo os casais mais unidos levam uma existência dupla ou tripla, sobretudo quando ambos trabalham, e têm mil outros alhures diferentes do adultério. O cônjuge não deve estar nem demasiado longe nem demasiado perto: deixamo-lo para mais facilmente o encontrarmos, fica-se ligado a ele pelo telefone, pelo correio electrónico, todos esses utensílios mantêm o contacto. O casal agoniza frequentemente com problemas de ordem doméstica, sapatos pelos cantos, mesas por levantar, quartos desarrumados. Tornar-se íntimo de um casal amigo é frequentemente como descer do céu à terra, descobrir pormenores de uma mesquinhez insondável de tal modo é grande a diferença entre a imagem que eles transmitem e o que são na realidade. O casal é um pequeno principado que vota as suas próprias leis e ameaça sempre cair no despotismo ou na anarquia. Os amantes são ao mesmo tempo soberanos, diplomatas, um parlamento e um povo. Ajustes permanentes, fricções evitadas, distribuição de tarefas domésticas (cuja maior parte recai ainda sobre as mulheres): o dueto contemporâneo é uma conjugação muito especial de paixão c de ninharias domésticas. Até o sexo se torna um fórum de discussão e trocam-se queixas e sugestões. Pedimos ao outro que nos tranquilize e nos surpreenda, que faça do lar algo que amortece os choques do mundo e a sede própria da agitação. Daí a necessidade de criar uma Constituição, passível de revisão a todo o instante, que permita a cada um encontrar o seu lugar e o seu ritmo. Falta de coragem? Sem dúvida alguma, mas os nossos amores não têm necessariamente de ser heróicos, pois não? Basta que existam: deixemos de atribuir-lhes os pretextos da paixão, da fatalidade, do fogo. É preciso escolher entre a glória e a perenidade.
(Publicações Europa-América)

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