RÓMULO DE CARVALHO / SER PROFESSOR - Nuno Crato

Rómulo de Carvalho tinha consciência do papel determinante do professor e da necessidade de este conduzir o estudante. Essa ideia - completamente contrária à posterior moda do «ensino centrado no aluno» - é uma das mais fortes em todos os escritos pedagógicos e em toda a actuação deste grande pedagogo. Mas é uma ideia que se alia à preocupação de despertar o espírito crítico nos alunos. Simplesmente, pela sua larga experiência e pela sua sagaz observação do ensino, Rómulo de Carvalho sabia que não se pode incentivar a reflexão autónoma, se esta não for pacientemente cultivada através da observação guiada, do estudo, da reflexão e do exercício. E que não é fingindo que os alunos são autores do seu próprio conhecimento que se pode desenvolver esse espírito crítico e autónomo.
Há algumas décadas, talvez sobretudo a partir dos anos 1980, tem-se procurado esbater a diferença entre investigação e ensino, afirmando que «toda a aprendizagem é uma descoberta», que os alunos devem transformar-se em investigadores e que a função do professor é apenas a de «criar situações de aprendizagem». Esta confusão, infelizmente, tem defensores entre muitos responsáveis político-pedagógicos portugueses. Há quem diga, por exemplo, referindo-se ao ensino, que a «investigação envolve actividades de complexidade variável, realizadas tanto por profissionais - os 'investigadores' - como pelas pessoas em geral, na vida de todos os dias» e conclua que é necessário «subscrever um conceito amplo de investigação que valorize sobretudo a importância das questões e da atitude questionante e não tanto os aspectos formais da actividade investigativa referenciada às práticas dos investigadores profissionais». Como justamente critica Maria Teresa Estrela, esta confusão de conceitos levaria «a concluir, por exemplo, que todo o ensino é investigação e qualquer narrativa ou reflexão sobre ele cai no conceito de investigação». Críticas semelhantes às confusões construtivistas tinham já sido feitas por Rómulo de Carvalho. Décadas antes de o construtivismo radical se ter tornado uma moda, os textos do professor de Física explicam já de forma modelar a necessidade de se perceber que o ensino é, na melhor das hipóteses, uma redescoberta activa guiada.
(…)
Pela descrição das actividades pedagógicas vê-se como este grande pedagogo defende uma aliança permanente entre a demonstração experimental, a actividade exploratória dos alunos e a liderança do professor.
O que talvez seja mais saliente na prática e reflexão pedagógica de Rómulo de Carvalho é o seu equilíbrio. Há rigor, mas acompanhado do desenvolvimento da intuição; há objectivos pedagógicos exigentes, mas também a preocupação de despertar o interesse dos alunos; há a experimentação, mas com a consciência das suas limitações; há o destaque da compreensão teórica, mas também a tentativa de ligar a escola à vida.

NUNO CRATO
Antigo aluno de Rómulo de Carvalho no Liceu Normal Pedro Nunes


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