O PARADOXO DA SABEDORIA - Elkhonon Goldberg

NOVAS PROVAS PARA NOVOS NEURÓNIOS
Por que razão é que, com a idade, o hemisfério direito se degrada mais rapidamente do que o hemisfério esquerdo, e o que é que protege o hemisfério esquerdo da degradação, tornando-o numa espécie de um prado «eternamente verdejante», ao longo das estações da mente: Qual é a base biológica que suporta essa misteriosa disparidade existente entre os dois hemisférios do cérebro? Será possível que à medida que o cérebro envelhece, ele também se renove a si mesmo, e que este processo de renovação seja, por alguma razão, mais vigoroso no hemisfério esquerdo do que no hemisfério direito? De modo a conseguir responder as estas questões, eu regressei ao piso da convenção e continuei a andar pelas galerias, para cima e para baixo, à procura de informações que consolidassem o meu outro palpite.
«Use-o ou perca-o» é um adágio extremamente conhecido que se encontra tradicionalmente associado ao mundo do atletismo. Mas, ultimamente, ele encontrou um novo significado nas ciências cerebrais. No decurso da última década, têm sido feitas descobertas espectaculares que modificaram os nossos pressupostos básicos sobre o que acontece ao cérebro ao longo de uma vida, e que puseram fim a algumas das crenças mais sacrossantas das neurociências. Ainda há duas décadas, nós costumávamos pensar que um ser humano nascia com uma compilação fixa de células nervosas no cérebro (os neurónios), que gradualmente iam morrendo, à medida que nós envelhecíamos, não existindo qualquer possibilidade de regeneração. Na época em que eu estava a tirar a licenciatura na Universidade de Moscovo, na Rússia, há já muitos anos, eu referia-me a este pressuposto (que era ideologicamente agnóstico e prevalecente em ambos os lados da Cortina de Ferro), de forma trocista e céptica, como sendo o princípio NNN: «Não há Novos Neurónios!»
Os neurocientistas reconheciam que o princípio NNN colocava o cérebro num lugar oposto ao resto do corpo humano, dado que a maioria dos outros órgãos é dotado da capacidade de regeneração.
Durante anos, uma mão cheia de cientistas iconoclastas, tais como Fernando Nottebohm e Joseph Altman, tentaram chamar a atenção da comunidade neurobiológica para estas descobertas, resultantes de experiências feitas em animais, e para as implicações que estas tinham nas terapias realizadas em humanos. Mas os seus esforços foram rejeitados, e os seus estudos foram considerados irrelevantes para o cérebro humano. Partíamos do pressuposto que os seres humanos eram diferentes, que a incapacidade de regeneração dos nossos neurónios era o preço que tínhamos de pagar em nome do privilégio que tínhamos em conseguirmos manter os nossos velhos neurónios, pois eram estes que codificavam o nosso conhecimento previamente adquirido, as nossas memórias, os nossos eus.
À primeira vista, isto parecia um exercício plausível em «neuroteleologia» dado que, tal como nós tão bem estabelecemos, os seres humanos dependem do conhecimento anteriormente acumulado ou adquirido, muito mais do que qualquer outra espécie. Mas, se fizermos uma análise mais profunda, o argumento não se sustém, dado que nós perdemos, de qualquer forma, os nossos velhos neurónios, à medida que vamos envelhecendo, quer nós queiramos ou não. Os neurologistas e os neuropsicólogos sabem muito bem que, até mesmo em pessoas perfeitamente saudáveis, os exames TAC ou IRM ao cérebro têm resultados diferentes, em diferentes idades, apontando para um certo grau de perda neuronal. Tal como nós já referimos, nos casos de envelhecimento normal a perda neuronal ocorre tanto no neocórtice, onde as memórias genéricas de reconhecimento de padrões estão contidas, como em certas estrutura subcorticais, bem como ao redor dos ventrículos, as cavidades existentes bem no interior do cérebro e que contêm o fluido cérebro-espinal. Dado que é cerro e sabido que o neocórtice não é completamente poupado, a única explicação para que haja a perda neuronal neocortical, sem que ela implique a perda de conhecimento essencial previamente acumulado, reside no pressuposto de que as nossas memórias, sobretudo as memórias genéricas, são armazenadas de uma forma altamente redundante. Uma tal redundância é reflectida, entre outras coisas, na «expansão de padrões», abordada nos capítulos anteriores.
O axioma NNN, que durante décadas foi à prova de bala, tornou-se finalmente indefensável, graças ao trabalho de Elisabeth Gould e de outros, que demonstraram a existência de proliferação neuronal contínua.
(…)
Actualmente sabemos que a velha premissa «Não há Novos Neurónios» simplesmente não é verdadeira. Ao longo da nossa vida desenvolvem-se constantemente novos neurónios a partir de células estaminais, e isso acontece mesmo durante o processo de envelhecimento. Portanto o nosso cérebro tem a capacidade de se restaurar e de se rejuvenescer.
(…) Diria ainda mais – e isto é extremamente importante - têm surgido cada vez mais indícios de que a taxa de desenvolvimento de novos neurónios poderá ser influenciada pelas actividades cognitivas, à semelhança do que acontece com o crescimento muscular que depende do exercício físico efectuado.
(Publicações Europa-América)


Para regressar ao AMOR PELOS LIVROS clique aqui