PALAVRAS PARA JOSÉ SARAMAGO

Saramago: a despedida de um escritor radical
Juan Cruz/
(Jornalista e escritor) Claín — Revista Ñ

Os portugueses são sóbrios, muito hem educados; no sábado à tarde e no domingo dc manhã eram milhares a abarrotar a Praça do Município, horas depois da morte dc José Saramago na sexta-feira, 18 de Junho, e não se ouvia uma mosca. Disse-o ao edilor do Nobel, o nobre Zeferino Coelho, amigo de José no triunfo e na doença; «Sim, já sei», disse-me ele, «nós portugueses somos assim. E olha que isso que invejas é o que menos gostamos. Gostaríamos de gritar como os espanhóis!»
Pode-se gritar de muitas maneiras; a escrita de Saramago, por exemplo, foi um grito camusiano, ou sartriano, não vamos entrar agora nessa discussão, no complicado século xx de cambalachos e de guerras. Foi um grito, às vezes solene, às vezes desgarrado, mas sempre proferido com a paciência que pulsa no português de Pessoa ou de Camões, mas sobretudo de Pessoa. Despedimo-nos de Saramago assim, com o grito e o sossego que são próprios da sua obra: as pessoas gritavam, com as suas gargantas ensombrecidas pela dor do adeus, e ao mesmo tempo eram conscientes da carta para a batalha que lhes deixava aquele de quem se despediam para sempre.
Foi um escritor radical, não fez concessões com a sua linguagem para a ficção, mas como cidadão foi multitudinário. As suas palavras apelaram à simplicidade da dicção e do entendimento, que pôs ao serviço de muitas causas com que o século xx se despediu para abraçar um século XXI ainda mais cruel e mais inexplicável. Presidiu a manifestações, cartas de apoio solidário, foi o guia de muitas dores que ainda hoje dilaceram (a situação palestiniana, a invasão do Iraque, o que acontece no Sara, aonde não podem voltar os seus legítimos habitantes), e fez tudo com um sossego que desarmava os seus adversários e inimigos, os que entenderam as suas posições e as respeitaram e os que (como o Vaticano) não lhe deram tréguas nem no momento da morte.
Era português, claro que sim, dessa estirpe que é uma combinação de raiva e de sossego, e esse símbolo máximo da sua cidadania esteve presente nesses actos de despedida, presididos pela sua mulher, Pilar dei Rio, que o seguiu para todo o lado desde que se apaixonou por ele a aquando de O Ano da Morte de Ricardo Reis, e pela filha Violante, elegante e enxuta, vivo retrato feminino da sobriedade radical, espartana, de seu pai.
Nestes actos de despedida perguntei a Carlos do Carmo, o músico, seu amigo, por que motivo as pessoas gostavam tanto de Saramago. Disse--me que era porque ele era «um extra-monumento» de Portugal, alguém que tinha chegado com o seu verbo às pessoas mais simples.

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A cocaína dos povos
Umberto Eco
(Escritor) L'espresso

Não tenho a certeza de José Saramago ter razão quando escreve que viveríamos numa sociedade mais pacífica se todos fôssemos ateus. Mas quer o «Gott mit uns» quer o «God bless America» (07 Dezember 2007), levam a algumas reflexões.
Num debate recente sobre a semiótica do sagrado acabámos a dada altura por falar da ideia que existe desde Maquiavel até Rousseau, e depois também da «religião civil» dos Romanos, entendida como conjunto de crenças e obrigações capaz de manter a sociedade unida. Foi chamada a atenção para o facto de, com esta concepção, em si virtuosa, se chegar facilmente à ideia de religião como «instrumentum regni», expediente que um poder político (porventura representado por descrentes) usa para que os seus próprios súbditos se mantenham obedientes.
A ideia já estava presente em autores que tinham experiência da religião civil dos Romanos e, por exemplo, Políbio (Histórias VI) escrevia, a propósito dos ritos romanos, que «numa nação formada só por sábios, seria inútil recorrer a meios como estes, mas como a multidão é por natureza volúvel e sujeita a paixões de todo o tipo, à avidez desenfreada, à ira violenta, tem de ser entretida com semelhantes artifícios e com temores misteriosos.
Parece-me por isso que os antigos tiveram razão ao introduzir nas multidões a fé religiosa e as superstições sobre o Hades e são insensatos aqueles que nos nossos dias tentam eliminá-las. Os Romanos, mesmo quando manejam muito dinheiro em cargos públicos e missões, mantêm-se honestos só por respeito ao vínculo do juramento; embora, nos outros povos raramente se encontre quem não toque no dinheiro público, entre os Romanos é raro encontrar alguém que se manche com esse delito.
Se até os Romanos se comportavam assim virtuosamente no tempo da República, é verdade que a determinada altura isso acabou. E pode-se compreender porque é que séculos depois Espinoza fez outra leitura do «instrumenti regni» e das suas cerimónias vistosas e fascinantes: Ora, se é verdade que o maior segredo e interesse do regime monárquico é manter os homens no engano e esconder sob o lindo nome da religião o medo com que eles devem continuar submissos, para que combatam pela sua escravidão como se esta fosse a sua salvação, também é verdade que numa comunidade livre não é possível pensar nem tentar realizar nada mais funesto». (Tratado Teológicoo-Político).
Partindo daqui não é difícil chegar à célebre definição de Marx para quem a religião em o ópio dos povos. Será verdade que as religiões têm todas e sempre esta «vinus dormitiva»? De opinião completamente diferente é, por exemplo, José Saramago, que muitas vezes se lançou contra as religiões como causadoras de conflito: "As religiões, todas elas sem excepção, nunca serviram para aproximar e reconciliar os homens, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de massacres, de violências físicas e espirituais monstruosas que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana» (República, 20 de Setembro de 2001.)
Saramago concluía algures que «se todos nós fôssemos ateus viveríamos numa sociedade mais pacífica». Não tenho a certeza de que ele tenha razão, mas parece que o papa Ratzinger lhe respondeu indirectamente na sua recente encíclica Spe salvi, quando diz que, pelo contrário, o ateísmo dos séculos XIX e XX, mesmo tendo-se apresentado como protesto contra injustiças do mundo e da história universal, fez com que a partir de «de tais premissas se praticassem as maiores crueldades e violações da justiça».
Suspeito que Ratzinger estava a pensar nesses homens sem Deus que foram Lenine e Estaline, mas esquecia-se que nas bandeiras nazis estava
escrito «Gotl mit uns» que significa «Deus está connosco», que falanges de capelães militares benziam os galhardetes fascistas, que o sanguinário Francisco franco se inspirava em princípios extremamente religiosos e era apoiado pelos Guerrilheiros de Cristo Rei (os adversários também cometeram crimes, mas foi ele que começou)...

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«Tu me manques»
Baptista Bastos (escritor)
Jornal do Fundão

«T'u me manques», escreveu, no último mail que me mandou. Conversávamos assim, quando nâo em directo, na casa dele, no Arco do Cego, num restaurante, o Solar dos Presuntos ou o Farta Brutos. Estão lá nas pa redes, retratos nossos, da Isaura e da Pilar. «Tu me manques»: fazes-me falta, numa tradução muito literal. Mas era mais do que a expressão de uma amizade calorosa, com mais de quarenta anos.
Gostava muito deste homem grave, afectuoso e gentil, deste homem rodeado de equívocos interpretativos por parte daqueles que confundiam a expressão do rosto com a intimidade da alma. José Saramago tinha muitos pudores e escrúpulos já raros. Não apreciava expor os seus sentimentos, a não ser com a Pilar, nem de dizer aos outros a fraternidade que aos outros dispensava.
«Tu me manques» — porque, eu próprio doente, estivera uns tempos sem nada lhe dizer. E zangou-se quando, por interposta pessoa, soube da minha enfermidade. Fora sempre assim, comigo; e essa relação de afecto transferiu-se para as nossas mulheres, para o entendimento que elas duas possuíam do sentido da vida e das infatigáveis batalhas que a vida exigia.
Uma vez, viajei para Lanzarote, com o objectivo (realizado) de lhe fazer uma longa entrevista. A ideia nasceu de Luiz-Francisco Rebelo, então presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, e corporizou-se num livro, José Saramago: Aproximação a Um Retrato, que serviu de base a outros textos biográficos. Na ilha áspera e dura discorremos durante horas a fio, nos intervalos dos longos passeios pelo chão castanho e desolado. As inquietações do meu amigo coincidiam com as minhas. A RDA, a URSS, o PCP, o estado das coisas, a tristeza do mundo, a esperança dos homens. Ele era impelido por uma energia que enfrentava a idade e os desgostos. Foi a locais perigosíssimos. Alinhou nos protestos contra a tirania. Afastou-se de Cuba, seguiu os ditames de uma consciência apenas obediente ao que entendia justo e nobre. E deu-nos um exemplo de coerência, de dignidade e de decência. Não obedeceu. Mas também não cedeu. «Tu me manques.»

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