A CASA DA SABEDORIA - Jonathan Lyons

O talentoso Thabil floresceu no ambiente culto de Bagdad e nos finais do século IX foi trabalhar como astrólogo real. Tendo sido um dos grandes intelectuais e linguistas do império, Thabit reviu e corrigiu as versòes árabes do Almagesto e de outros clássicos gregos e produziu obras originais sobre a teoria dos números, cálculo e mecânica. Escreveu também vários textos sobre os pontos de vista filosóficos e religiosos dos seus conterrâneos sabeus e foi considerado pelos eruditos árabes como um especialista cm talismãs. No prefácio à sua própria tradução do texto de Thabit sobre magia, o estudioso latino João de Sevilha do século XII sugere que Adelardo, o único outro ocidental a ter visto a obra original árabe, terá procurado um exemplar quando esteve em Antioquia: «Este livro obtive-o eu então, com a ajuda do espírito de Deus, o meu Mestre — um livro que nenhum outro latino teve, para além de um certo antioquiano, que uma vez obteve parte dele». Este «certo antioquiano» é precisamente Adelardo de Bath que publicara anteriormente uma versão abreviada do mesmo texto.
Enquanto outros temiam a influência da feitiçaria sarracena, Adelardo louvava a ideia de que o homem pudesse aspirar a conhecer a natureza e mesmo a dominá-la. Fazendo notar que o estudo dos talismãs começa por requerer o domínio da astronomia e da astrologia, Adelardo ligou ainda diretamente a prática da magia a outras diligências científicas. «Quem for experiente em geometria e filosofia mas não tiver a experiência da ciência das estrelas, é inútil; porque a ciência das estrelas é, de entre todas as artes, a mais admirável na sua matéria, bem como a mais útil devido ao efeito dos talismãs», escreve Adelardo na sua versão da obra de Thabit ibn Qurra. O texto, conhecido como O Livro dos Talismãs, inclui magias para afastar ratos e técnicas para reacender o amor entre marido e mulher. Há mesmo um talismã pura libertar uma cidade dos escorpiões. Primeiro, deve moldar-se uma imagem de um escorpião em metal, enquanto Escorpião se encontra no ascendente. A seguir, inscreve-se o nome desta constelação e outros pormenores astronómicos no talismã. Por fim, enterra-se no lugar a proteger — ou. ainda melhor, nos quatro cantos do lugar — enquanto se recita «Este é o enterro dele e da sua espécie, para que nunca mais volte a este mesmo sítio».
Adelardo impregnou a sua tradução de frases árabes, ulilizadas livremente, conferindo-lhe um fascínio misterioso num mundo latino que ansiava por novidades e informação básica.

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Os fazendeiros da Espanha tornaram-se especialistas no desvio, acumulação e distribuição de águas para a agricultura, como testemunha a rica trilha linguística árabe que deixaram na Espanha contemporânea: as palavras para comporta (azuda), canal de irrigação (acéquia), nora (noria), azenha (aceña) e outros termos relacionados com actividade são todos derivados do árabe. Este mesmo processo de progressão de Oriente-para-Ocidcnte e de adaptação selectiva foi repelido sucessivamente, abrangendo tudo, desde as mais recentes modas em música, roupas, e gosto, até aos mais sofisticados estudos sobre astronomia, matemática, medicina c filosofia.
Desde a sua fundação que a corte árabe em Córdova tinha começado a importar livros e a atrair estudiosos do Oriente, numa aposta deliberada para competir com os abássidas. Entre essas obras contava-se o zij al-Sindhind de al-Khwarizmi, que chegou pouco tempo depois da sua finalização em Bagdad. A luta prolongada entre al-Mamun e o seu irmão pelo trono abássida no início do século IX deixou uma boa quantidade de intelectuais da corte, médicos e poetas temporariamente sem patrocínio e sem perspetivas; para alguns, a grande oportunidade de tentar a sorte era no al-Andalus. Mesmo assim, a Espanha leve de suportar durante muito tempo uma reputação de posto fronteiriço inculto e provinciano por parte dos círculos intelectuais de Bagdad, Cairo e Damasco. Muitas vezes foi necessário haver perturbações políticas ou sociais no Oriente, ou recorrer a promessas de recompensas financeiras substanciais, para convencer estudiosos hesitantes a empreender a viagem.
Um dos que se aventurou foi o famoso músico Ziryab, que chegou de Bagdad envolvido em circunstâncias misteriosas: narrativas da época referem intrigas reais e o ciúme venenoso de um rival menos talentoso. Ziryab trouxe consigo um repertório de milhares de canções e o seu talento e fama em breve o confirmaram como o árbitro das elegâncias de Córdova, em modos, gosto e cultura popular. É-lhe atribuída a introdução de requintes como a pasta de dentes, o desodorizante para as axilas, comer as refeições em vários pratos e da boa cozinha em geral. Entre outras figuras que fizeram na época a sua entrada em cena, encontrava-se o excêntrico inventor Abbas ibn Hmas, cuja tentativa mal sucedida de fabricar umas asas e voar das alturas do palácio do emir terminou cm sérios danos, mas não lhe quebrou o espírito: continuou a aperfeiçoar uma técnica, desta vez para cortar cristal, construiu um planetário dentro de casa e desenhou uma complexa clepsidra ou relógio de água que conseguiu marcar correctamente as horas das cinco refeições diárias.

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Apesar das suas novas bases empíricas, as tabelas de Walcher enfermavam ainda da convenção medieval de determinar um número igual de dias a cada um dos doze meses. Isto funcionava para cálculos por alto, mas era grave na contagem dos dias do ano. Uma revisão quase contemporânea do calendário realizada na Pérsia pelo sábio Omar Khayyam — conhecido no Oriente não como o poeta de Rubaiyat, mas pela sua matemática supremamente refinada — calculou a duração do ano solar com a precisão de onze pontos decimais. Na ausência dc um entendimento teórico do movimento dos planetas, Walchcr e os seus colegas foram incapazes de aplicar à medição científica o rigor recém-adquirido. Precisavam da ajuda dos astrónomos árabes.
A tradução de Adelardo do zij al-Sindhind forneceu uma das peças do puzzle, ao proporcionar ao Ocidente uma primeira visão real dos trabalhos mais desconhecidos da astronomia matemática dos árabes. A geometria de Euclides forneceu outra, porque permitiu apreender as vastas dimensões implicadas na medição dos corpos celestes e exprimi-las em termos de «distâncias angulares» relativamente à Terra ou uns relativamente aos outros. Permitiu também o cálculo rigoroso e a cartografia das posições terrestres e celestiais, quer numa esfera, quer «projetadas» num mapa ou numa carta bidimensional, ou ainda na placa do astrolábio. Com a publicação do seu tratado original Do Uso do Astrolábio, provavelmente por volta de 1149 ou 1150. Adelardo revolucionou a forma como o homem ocidental interpretava o universo que o rodeava. Deixou também explícita a ligação entre a nova tecnologia e a abrangente construção científica árabe que se erguia por trás dela. Desde o registo do tempo até à navegação, os segredos do mundo físico podiam ser agora completamente explicados.
Para Adelardo, o astrolábio era mais do que um simples instrumento que se apontava para o sol ou para alguma estrela proeminente e que depois se utilizava para fazer medições ou saber a hora; era um símbolo em bronze polido de uma forma completamente nova de encarar o mundo, desenvolvido pela filosofia clássica e pela inovação dos estudiosos árabes da Casa da Sabedoria. Armado dc um lai instrumento, o homem podia medir e começar a decifrar os movimentos regulares das estrelas e dos planetas. Podia explorar as leis da natureza e adquirir novos pontos de vista sobre a forma de funcionamento das coisas.

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