O CRIADOR DE LETRAS - Pedro Foyos

(Do Capítulo "A Letra Renascida" depois do jovem Lunaâkel ter sido assassinado)

- Ao reentrar em casa o Criador de Letras vê o fragmento de papiro contendo o brevíssimo registo de memória. Três traços: |<
- Que insuportável a visão daqueles simples três traços! A mão trémula percorre com a ponta do ramo da oliveira o traço vertical que reinventa, aos seus olhos de artista, a figura esguia de Lunaâkel. Depois, ao concentrar a atenção na veloz seta "bronze de duas asas” que parece indominável no seu voo de morte... Se lhe fosse possível, agora mesmo, dirigir-lhe um sopro lateral como sabe fazer o "deus do veado"!
- O Criador de Letras volta furiosamente o pedaço de papiro com a face do desenho para baixo. Esmurra o papiro mas as pancadas esvaem-se em gestos flácidos de cansaço. Ser-lhe-á doloroso trabalhar nesta nova letra. (Lunaâkel, figurado na pureza esbelta de um só traço vertical parece-lhe uma boa inspiração). Lunaâkel, onde estás? A caminho da Ponte de Zinvaât? Talvez os deuses ainda debatam a singularidade do teu caso, hesitando se deverás ou não aceder ao Jardim do Outro Lado. Brincas com tudo, Lunaâkel, até com os deuses! Anu? Ah, sim! Esquecia-me do teu «deus privativo». Decerto o poderoso Anu se antecipará. Vai descer rapidíssimo do Terceiro Céu, entretanto adverte toda a assembleia Baal: «Este menino está sob minha protecção, deixem-no comigo!» - e colocar-te-á no atalho que conduz à outra terra onde ninguém conhece a maldade e se vive eternamente jovem.
- O Criador de Letras dá-se conta de que a prece dirigida ao estrangeiro Anu poderá desagradar aos deuses da Cidade. Constrangido, diz: «Minha Senhora Ashtart, Meu Senhor Adôn, Meu Senhor Reshef, ó grandes-grandes deuses da minha veneração, sete vezes e sete vezes vos imploro indulgência para com este imperfeito mortal cujo coração está numa desordem de sustos, de incertezas, ou será a cabeça, e que comete a imprudência de bater à porta de todos os deuses porque vê extinguir-se o sorriso de um grande amigo, ele anda desaparecido e quando isso acontece magoa no peito a dor que podem ver, uma dor-dor imensa que nos cega a razão fazendo acreditar que todos os deuses não serão de mais e mais que viessem para salvar esse amigo e oferecer-lhe a paz e permitir que ele recomece a sorrir e se possível darem notícias dele e…”…

Sai de novo de casa e, arrasta-se na direcção da velha oliveira.
- Mãe Tâat! Sinto-me tão perdido! Durmo hoje aqui.
- Está uma bela noite. Dorme, meu filho.

(Editorial Hespéria)

(Nota de Gil Montalverne: Não é difícil prever qual será a letra criada.)

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