«Se os seres humanos desaparecerem», diz o ornitólogo Steve Hilty, «pelo menos um terço das aves da Terra poderão nem sequer dar-se conta disso.»
Não se refere àquelas aves que erram pelas bacias isoladas do Amazonas, ou pelas longínquas florestas da Austrália, ou pelas encostas brumosas da Indonésia. Se outros animais que provavelmente se dariam conta - os carneiros selvagens ou os rinocerontes negros, acossados, caçados e ameaçados, por exemplo -- iriam ou não celebrar o nosso desaparecimento, está para além da nossa compreensão. Podemos ler as emoções de muito poucos animais, a maior parte deles cãezinhos e cavalos domesticados. Estes iriam sentir falta das refeições a horas e, apesar das trelas e das rédeas, de alguns donos amáveis. As espécies animais que consideramos mais inteligentes - golfinhos, elefantes, porcos, papagaios e os nossos primos chimpanzés e bonobos - não sentiriam provavelmente grande falta de nós. Apesar de, por vezes, fazermos bastantes esforços para os proteger, o perigo somos, geralmente, nós.
Seríamos principalmente chorados por criaturas que literalmente não conseguem viver sem nós porque evoluíram a viver em nós: o Pediculus humanus pitis e o Pediculus humanus humanus, respectivamente o piolho do cabelo e o do corpo. Os últimos estão adaptados de forma tão específica que dependem não só de nós, mas das nossas roupas - uma característica única entre as espécies, excluindo talvez a dos desenhadores de moda. Ficariam também de luto os Demodex folliculorum, tão pequenos que nas nossas pestanas vivem centenas deles, comendo utilmente as células mortas e evitando que a caspa os inunde.
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As hipóteses de desaparecermos todos ao mesmo tempo, ou até em breve, são pequenas, mas dentro do reino das possibilidades. As hipóteses de só nós, seres humanos, morrerem, deixando tudo o mais por cá, são ainda mais remotas, mas, mesmo assim, maiores do que zero.
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Todos nós, seres humanos, temos miríades de outras espécies a quem agradecer. Sem elas, não poderíamos existir. É tão simples como isto, e não nos podemos dar ao luxo de as ignorar. Sem nós, a Terra sobreviveria; sem ela, no entanto, nós não poderíamos sequer existir. (Alan Weisman)
(Estrela Polar/Oficina do Livro)
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