A CONDIÇÃO HUMANA - Vários autores

Mas sendo já aparentemente consistente a retirada de poderes às mães naturais, a falta de atenção prestada nesta área aos direitos das crianças atinge um nível de abuso chocante. Em muitos países, não existe em funcionamento nenhum sistema legal adequado para arquivo da informação referente a gâmetas ou outros processos de doação. Especialmente na Austrália, parece que não conseguimos aprender com os processos de adopção. Socialmente, continuamos a mentir às pessoas acerca das suas origens. Por todo o mundo, em muitos casos, se os pais não contarem aos seus filhos a sua forma de concepção, estes podem nunca vir a conhecê-la. E se a vierem a conhecer, podem nunca ser capazes de encontrar informação acerca da sua origem genética, por causa da falta de arquivo.
É crucial que as crianças nascidas através da tecnologia reprodutiva não continuem a ser infantilizadas, como se nunca viessem a ser adultos com opiniões fortes a respeito do seu direito de acesso à informação acerca das suas origens. Apesar do facto de os dadores genéticos não estarem envolvidos nas relações de paternidade, permanecem ligados à criança através da sua doação genética. Cabe à criança/adulto nascido deste modo assumir ou ignorar a sua relação potencial com o dador genético. O impacto emocional desse conhecimento só virá a ser conhecido à medida que uma geração de crianças cresça. Nalgumas situações, o potencial de confusão emocional será enorme, se forem utilizados óvulos e esperma doados, resultando no envolvimento de 4 ou 5 adultos na criação da pessoa que daí resultar.
Em termos da análise dos direitos, as relações das crianças parecem estar consistentemente ameaçadas. Num caso nos Estados Unidos, uma criança de quatro anos foi entregue à sua mãe biológica e pai biológico, pelo tribunal, apesar do facto de ter sido adoptada com um mês de idade e residido numa relação familiar feliz durante três anos e meio. Apesar de a criança ter desenvolvido uma relação continuamente afectuosa na sua família de adopção, os tribunais decidiram finalmente que o «pai» biológico tinha o direito de retirar a criança da sua família. Tinha sido acarinhado e educado por pais não biológicos e, mesmo assim, os direitos concedidos pelos tribunais à ligação biológica destruíram as relações desta criança. Tal como disse o pai adoptivo numa entrevista antes da decisão final: «Se o nosso filho nos for retirado, perde toda a sua vida - os seus avós, irmão, amigos, tudo o que conhece deixará de existir”. No intuito de enfatizar os direitos parentais, as relações existentes da criança foram ignoradas.
(Dom Quixote)

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