Michel Ardan teria desejado incluir na sua expedição um certo número de animais, não um casal de todas espécies, pois não via necessidade de aclimatar à Lua as serpentes, os tigres, os jacarés e outros bichos malfazejos.
— Não — dizia ele a Barbicane —, mas alguns animais de carga, boi ou vaca, burro ou cavalo, ficariam bem na paisagem e ser-nos-iam de grande préstimo.
— Concordo, meu caro Ardan — respondia o presidente do GunClub —, mas o nosso vagão-projéctil não é a arca de Noé. Não tem a sua capacidade nem destino. Conservemo-nos assim nos limites do possível.
Enfim, após demoradas discussões, assentou-se em que os viajantes se limitariam a levar uma excelente cadela de caça pertencente a Nicholl e um vigoroso terra-nova de força prodigiosa. Várias caixas, das sementes mais úteis, foram acrescentadas ao número dos objectos essenciais. Se lho houvessem consentido, Michel Ardan teria embarcado também alguns sacos de terra para lá os semear. Em todo o caso, pegou numa dúzia de arbustos, envolveu-os cuidadosamente num estojo de palha e depô-los num canto do projéctil.
Restava então a importante questão dos viveres, pois era preciso prever a circunstância de se arribar a uma porção da Lua absolutamente estéril. Barbicane saiu-se tão bem que logrou recolher o suficiente para um ano. Mas temos de confessar, para não espantar ninguém, que estes víveres consistiam em conservas de carnes e de legumes reduzidos ao seu mais simples volume sob a acção da prensa hidráulica, e que continham uma alta quantidade de elementos nutritivos; não eram muito variados, mas não se podia ser exigente numa tal expedição. Havia também uma reserva de aguardente, susceptível de se elevar a cinquenta galões, e água para apenas dois meses; com efeito, na sequência das últimas observações dos astrónomos, ninguém punha em causa a presença de uma certa quantidade de água à superfície da Lua. Quanto aos víveres, teria sido insensato crer que habitantes da Terra não deparariam lá em cima com que se alimentar. Michel Ardan não nutria qualquer dúvida a tal respeito. Se a nutrisse, não se teria decidido a partir.
— Aliás — disse ele um dia aos seus amigos —, não nos veremos completamente abandonados pelos nossos camaradas da Terra, e eles cuidarão de não nos esquecer.
— Com certeza — respondeu J.-T. Maston.
— Não entendo bem ... — disse Nicholl.
— Nada mais simples — respondeu Ardan. — Não é verdade que o Columbiad estará sempre aqui? Ora bem! Todas as vezes que a Lua se apresentar em condições favoráveis de zénite, quando não de perigeu, ou seja, mais ou menos uma vez por ano, não podereis enviar-nos granadas carregadas de viveres, que nós aguardaremos em data marcada?
— Hurra! Hurra! — exclamou J.-T. Maston, qual homem a quem ocorreu uma boa ideia. — Bem dito, sim senhor! Descansai, meus bravos amigos, não vos esqueceremos!
— Conto com isso! Assim, como vedes, teremos regularmente notícias do globo, e, quanto a nós, muito desastrados seríamos se não descobríssemos maneira de comunicar com os nossos bons amigos da Terra!
Estas palavras exalavam tamanha confiança que Michel Ardan, com o seu ar determinado, o seu soberbo aprumo, teria arrastado todo o Gun-Club atrás de si. O que ele dizia parecia simples, elementar, fácil, de êxito assegurado, e só quem estivesse apegado de um modo realmente mesquinho a este miserável globo terráqueo é que não seguiria os três viajantes na sua expedição lunar.
Quando os diversos objectos já se achavam arrumados no projéctil, a água destinada a servir de mola foi introduzida entre os seus tabiques e o gás de iluminação comprimido no seu recipiente. No tocante ao clorato de potassa e à potassa cáustica, Barbicane, receando atrasos imprevistos no caminho, armazenou uma quantidade suficiente para renovar o oxigénio e absorver o anidrido carbónico durante dois meses. Um aparelho deveras engenhoso, funcionando automaticamente, encarregava-se de restituir ao ar as suas qualidades vivificantes e de o purificar de uma maneira completa. Em suma, o projéctil estava pronto …
(Publicações Europa-América)
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