ALABARDAS, alabardas - ESPINGARDAS,espingardas - 

José Saramago


Nesta altura lembrou-se de felícia, seria simpático da sua parte informá-la do que o livro de malraux narrava. Se ela não o tivesse lido, os seus sentimentos pacifistas lho agradece­riam. A irritação diminuíra, situava-se agora num nível facilmente suportável, como uma contrarie­dade corrente, por exemplo, uma porta a ranger, uma torneira a pingar, o cão que não se cala. Come­çou a marcar o número do telefone, mas desligou a meio. Pensou que podia suceder que ela estivesse acompanhada, sabe-se lá, ou, pelo contrário, sabe-se bem de mais, o que a chamada iria interromper ou perturbar, ela talvez a sussurrar a alguém, Deixa, deixa tocar, estamos ocupados, não será nada de importância. Artur paz semedo olhou a página do livro, viu os operários fuzilados, os morteiros inutilizados e. sem mais hesitação, voltou a marcar, desta vez até ao fim. O telefone deu três sinais e ela respondeu. Estou, Sou eu, o artur, |á sabia, vi aqui o teu número, Desculpa vir ligar-te a esta hora, Ainda não é tarde, Aconteceu-me uma coisa de que gostaria de te falar, Algum problema, perguntou ela, Problema, não direi, mas estou com o espírito confuso, Se isso é por causa de alguma mulher que acabaste de conhecer, desejo-te as maiores felicidades, Qual mulher, qual nada, tenho coisas mais importantes em que pensar, Olha que seria digna de exame essa tua preocupa­ção, pelo menos assim me parece, de quereres que acredite que não tens andado com ninguém depois ir eu ter saído de casa, Ande ou não ande, não é da tua conta, não te diz respeito, Muito bem, explica-me então porque tens a cabecinha confusa, Há uma semana fui à cinemateca para ver um filme chamado l’espoir, Também o vi, estive lá anteontem, É uma história comovedora, sobretudo aquela descida da serra de teruel, Custa a segurar as lágrimas, é certo, Eu confesso que chorei, disse artur paz semedo, Já to disse, também eu, disse felícia. Houve um silêncio. Podia-se pensar que estavam contentes por terem partilhado uma emoção tão forte, quem sabe se por coincidência sentados na mesma cadeira do cinema, mas nunca o reconheceriam, fazê-lo seria dar mostra de debilidade sentimental de que o outro poderia vir a aproveitar-se. Todo o cuidado é pouco com os casais separados. Afinal, perguntou felícia, que tinhas tu para me contar, Depois do filme, achei que devia ler o livro deste malraux, mas em má hora o fiz, Porquê, Já perto do fim há uma referência a uns operários que foram fuzilados em milão por terem sabotado obuses, E depois, Parece-te mal, perguntou ele. Nem mal nem bem, só me parece justo que eles o tivessem feito, Justo, justo, escandalizou-se artur paz semedo, fazendo vibrar de indignação a membrana interior do aparelho, Sim, não só justo, como necessário, uma vez que estavam contra a guerra, Claro, e agora estão mortos, A gente de alguma coisa tem de morrer, Fica-te mal o cinismo, aliás não me admira, sempre foste como uma pedra de gelo, Tu, sim, que és cínico ao exibir essa falsa virtude ofendida, e, quanto à pedra de gelo, peço meças, O que faço é defender o meu trabalho, graças ao qual pudeste viver uns quantos anos, Realmente és um cavalheiro, se ainda não te havia agradecido a caridade, disse felícia, agradeço-ta agora, Deveria saber que iria arrepender-me de ter telefonado, Podes cortar a ligação quando quiseres, mas já agora peço-te que me dês tempo para contra-te uma história parecida que com certeza não conheces, é um minuto, não preciso de mais, Estou a ouvir, Li em tempos, não recordo onde nem exatamente quando, que um caso idêntico sucedeu na mesma Guerra de espanha, um obus que não explodiu tinha dentro um papel escrito em português que dizia Esta bomba não rebentará, Isso deve ter sido obra do pessoal da fábrica de braço de prata, eram todos mais ou menos comunistas, Nessa altura parece que havia poucos comunistas, E algum que não o fosse, seria anarquista, Também pode ter sido gente da tua fábrica, Não temos cá disso, Braço de prata ou braço de ouro, o gesto é idêntico, com a diferença importante de que neste caso ninguém terá sido fuzilado, ao menos que se tivesse sabido, Ao contrário do que pareces pensar, não reclamo fuzilamento para os culpados de crimes como esse, mas apelo para o sentido de responsabilidade das pessoas que trabalham nas fá­bricas de armas, aqui ou em qualquer outro lugar, disse artur paz semedo, Sim, o mesmo tipo de res­ponsabilidade que fez com que nunca tivesse havido uma greve nessas fábricas, Como o sabes, Teria sido notícia mundial, teria entrado na história, Não se pode discutir contigo, Pode, é o que temos estado a fazer. Devo desligar, Antes, ainda te dou uma su­gestão para as horas vagas, Não tenho horas vagas, Pobre de ti, mouro de trabalho, Que sugestão é essa, Que investigues nos arquivos da empresa se nos anos da guerra civil de espanha, entre trinta e seis e trinta e nove, foram vendidos por produções be­lona s. a. armamentos aos fascistas, (…)
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Do texto de Fernando Gómez Aguilera
“Um livro inacabado, uma vontade firme”
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A par­tir de Ensaio sobre a Cegueira, continuou a perscru­tar e a iluminar essas zonas de sombra que atingem e deterioram a dignidade humana, penetrando na consciência e nas formas de relação do sujeito tardo-moderno. (…) «Dei-me conta, nestes últimos anos, da que estou à procura de uma formulação da ética: quero expressar, através dos meus livros, um sentimento ético da existência, e quero expressá-lo literariamente», reconheceria em 1996. Esse rearmamento moral, confrontado com a resig­nação do espírito, devia contribuir para desenvolver a condição humana e, em sua opinião, teria ancorar-se no comportamento quotidiano, na vida diária: «Quando dizemos o bem e o mal... há uma série de pequenos satélites desses dois grandes pla­netas, que são a pequena bondade, a pequena mal­dade, a pequena inveja, a pequena dedicação...(…) De uma maneira ou de outra, alertava para a necessidade de o nosso tempo adotar um «sentido ético da existência», uma mobilização que passava por sublinhar a coerên­cia individual e interiorizar as relações de respeito, apoiada num axioma tão básico como universal: não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.

Alabardas, alabardas. Espingardas, espin­gardas, o último fôlego narrativo de José Saramago, pretendia inscrever-se nesse espaço delimitado por pensamento e ética: um romance de ideias com uma forte componente de reivindicação e provocação, um derivativo de filosofia moral para a consciência dos seus leitores, tomando como argumento o mundo inóspito e lacerante da produção e do uso de armas.
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Do texto de Roberto Saviano
“Também eu conheci Artur Paz Semedo”
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Também eu conheci Artur Paz .Semedo. Não tra­balhava nos serviços de faturação de armamento ligeiro e munições da Belona S. A., e não teve uma ex-mulher pacifista. Não vivia em Itália. Provavel­mente nunca pegou numa pistola, imagine-se se alguma vez terá pensado em dar um tiro. Mas tam­bém eu conheci Artur Paz Semedo e o seu nome era Christian Poveda.
A sua arma?
Já não sei, cansei-me de falar em armas. Há algum tempo empunhei uma kalashnikov, e sugeri que fizessem o mesmo todos aqueles que tivessem von­tade de me seguir até um dos poucos lugares ainda livres: o teatro. Tocar numa arma é uma experiência que toda a gente devia fazer. Toda a gente deveria percorrer os canos com as pontas dos dedos, sentir o peso do carregador, primeiro vazio, depois cheio de projéteis. De outro modo resta apenas o fascínio ou a repulsa. (…) Para contar a história de Christian utilizei muitas vezes uma palavra: «triste». Triste para ele, morto assim, jovem e traído como um herói de Homero, triste perante a ideia de que talvez as suas palavras, ao fim e ao cabo, não tenham servido para nada. Estou cansado dos enganos das palavras (…)  «O escritor que decide escrever claro quer leitores, o escritor que escreve obscuro quer antes intérpre­tes.» Camus tinha razão. Saramago sabia respon­der; «É o que as palavras simples têm de simpático, não sabem enganar.» Encontrar palavras simples é o trabalho mais complicado que um escritor pode es­colher. Palavras simples e incapazes de engano. Pa­lavras talvez capazes de serem felizes.

Também eu conheci José Saramago.

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