Deitado na cama, os pés sobre um jornal para não sujar a colcha, Abel saboreava um cigarro. Tivera uma boa refeição. Mariana sabia cozinhar. E era, também, uma ótima dona de casa. Notava-se isso no arranjo da habitação, nos mais pequenos pormenores. O seu quarto ali estava para demonstrá-lo. Os móveis eram pobres, mas limpos, e tinham um ar de dignidade. Não há dúvida de que, assim como os animais domésticos - o cão e o gato, pelo menos - refletem o temperamento e o caráter dos donos, também os móveis e os objetos mais insignificantes de uma casa refletem alguma coisa da vida dos seus proprietários. Deles se desprende frieza ou calor, cordialidade ou reserva. São testemunhas que a toda a hora estão contando, numa linguagem silenciosa, o que viram e o que sabem. A dificuldade está em encontrar o momento mais favorável para recolher a confissão, a hora mais íntima, a luz mais propícia.
Seguindo no ar o movimento envolvente do fumo que subia, Abel ouvia as histórias que lhe contavam a cómoda e a mesa, as cadeiras e o espelho. E também as cortinas da janela. Não eram histórias com princípio, meio e fim, mas um fluir doce de imagens, a linguagem das formas e das cores que deixam uma impressão de paz e serenidade.
Sem dúvida, o estômago conchegado de Abel tinha parte importante nesta sensação de plenitude. Havia já muitos meses que estava privado das simples refeições domésticas, do sabor particular da comida feita pelas mãos e pelo paladar de uma tranquila dona de casa. Comia nas tabernas a meia-económica insossa e os carapaus fritos que, a troco de escassos escudos, dão aos pouco abonados a ilusão de que se alimentaram. Talvez Mariana desconfiasse disto mesmo. De outro modo, não se compreenderia o convite, de tão poucos dias datavam as suas relações. Ou talvez Silvestre e Mariana fossem diferentes. Diferentes de todas as pessoas que conhecera até aí. Mais humanas, mais simples, mais abertas. Que é que dava à pobreza dos seus hospedeiros aquele som de metal puro? (Por uma associação de ideias obscura, era assim que Abel sentia a atmosfera da casa.) «A felicidade? Será pouco. A felicidade comparticipa da natureza do caracol, que se retrai quando lhe tocam.» Mas, a não ser a felicidade, que poderia ser, então? «Talvez a compreensão... Mas a compreensão é uma palavra, apenas. Ninguém pode compreender outrem, se não for esse outrem. E ninguém pode ser, ao mesmo tempo, outrem de si mesmo.»
O fumo continuava a escapar-se do cigarro esquecido. «Estará na natureza de certas pessoas esta capacidade de desprender de si mesmas algo que transfigura a vida? Algo, algo... Algo, pode ser tudo ou quase nada. O que interessa é saber o quê. Mas, então, vejamos, ponhamos a pergunta: o quê?»
Abel pensou, tornou a pensar e, no fim, tinha diante de si apenas a pergunta. Parecia um beco sem saída. «Que pessoas são essas? Que capacidade é essa? Em que consiste a transfiguração? Não estarão estas palavras demasiado longe do que querem exprimir? A circunstância de ser forçoso o uso das palavras não dificultará a resposta? Mas, nesse caso, como achá-la?»
Alheio ao esforço especulativo de Abel, o cigarro consumiu-se até aos dedos que o seguravam. Com precaução para não fazer cair o longo morrão em que o cigarro se transformara, deitou a ponta para o cinzeiro. Ia retomar o fio do raciocínio, quando soaram duas pancadas leves na porta. Levantou-se:
- Pode entrar. Apareceu Mariana com uma camisa na mão:
- Desculpe incomodá-lo, senhor Abel, mas não sei se esta camisa terá arranjo...
Abel segurou a camisa, mirou-a e sorriu:
- Que acha, senhora Mariana?
(...)
Por entre os véus oscilantes que lhe povoavam o sono, Silvestre começou a ouvir rumores de loiça mexida e quase juraria que transluziam claridades pelas malhas largas dos véus. Ia aborrecer-se, mas percebeu, de repente, que estava acordando. Piscou os olhos repetidas vezes, bocejou e ficou imóvel, enquanto sentia o sono afastar-se devagar. Com um movimento rápido, sentou-se na cama. Espreguiçou-se, fazendo estalar rijamente as articulações dos braços. Por baixo da camisola, os músculos do dorso rolaram e estremeceram. Tinha o tronco forte, os braços grossos e duros, as omoplatas revestidas de músculos encordoados. Precisava desses músculos para o seu ofício de sapateiro. As mãos, tinha-as como petrificadas, a pele das palmas tão espessa que podia passar-se nela, sem sangrar, uma agulha enfiada.
Num movimento mais lento de rotação, deitou as pernas para fora da cama. As coxas magras e as rótulas tornadas brancas pela fricção das calças que lhe desbastavam os pêlos entristeciam e desolavam profundamente Silvestre. Orgulhava-se do seu tronco, sem dúvida, mas tinha raiva das pernas, tão enfezadas que nem pareciam pertencer-lhe.
Contemplando com desalento os pés descalços assentes no tapete, Silvestre coçou a cabeça grisalha. Depois passou a mão pelo rosto, apalpou os ossos e a barba. De má vontade, levantou-se e deu alguns passos no quarto. Tinha uma figura algo quixotesca, empoleirado nas altas pernas como andas, em cuecas e camisola, a trunfa de cabelos manchados de sal-e-pimenta, o nariz grande e adunco, e aquele tronco poderoso que as pernas mal suportavam.
Procurou as calças e não deu com elas. Estendendo o pescoço para o lado da porta, gritou:
- Mariana! Eh, Mariana! Onde estão as minhas calças? (Voz de dentro:)
-Já lá vai!
Pelo modo de andar, adivinhava-se que Mariana era gorda e que não poderia vir depressa. Silvestre teve que esperar um bom pedaço e esperou com paciência. A mulher apareceu à porta:
- Estão aqui.
Trazia as calças dobradas no braço direito, um braço mais gordo que as pernas de Silvestre. E acrescentou:
- Não sei que fazes aos botões das calças, que todas as semanas desaparecem. Estou a ver que tenho que passar a pregá-los com arame... A voz de Mariana era tão gorda como a sua dona.
(...)
Caetano remoía ideias de vingança. Sofrera um enxovalho e queria vingar-se. Mil vezes se censurou pela sua cobardia. Devia ter pisado a mulher a pés, como dissera. Devia tê-la esmurrado com os seus punhos grossos e cabeludos, obriga-la a correr todos os cantos da casa diante do seu furor. Não fora capaz, faltara-lhe a coragem e agora queria vingar-se. Mas queria uma vingança perfeita, que não se limitasse as pancadas. Qualquer coisa mais refinada e subtil, o que não significava que, para complemento, não pudessem vir as brutalidades.
Ao recordar a cena humilhante estremecia de cólera. Procurava manter-se nessa disposição, mas, mal a porta se abria, sentia-se impotente. Quis convencer-se de que era o aspecto débil da mulher que o impedia, quis dar a sua fraqueza ares de comiseração, e atormentava-se, consciente de que nada mais era senão fraqueza. Imaginou meios de aumentar o seu desprezo pela mulher: ela retribuía com um desprezo maior. Passou a dar-lhe menos dinheiro para o governo da casa. Logo desistiu porque era o único prejudicado: Justina apresentava menos comida. Durante dois dias inteiros (chegou a sonhar com isso) pensou em esconder ou retirar de casa o retrato e as recordações da filha. Sabia que era o golpe mais fundo que podia assestar na mulher.
O medo é que o impediu. Não medo da mulher, sim das possíveis consequencias do ato. Afigurou-se-lhe que tal ação se parecia muito com um sacrilégio. Tal gesto decerto lhe acarretaria as maiores desgraças: a tuberculose, por exemplo. Com os seus noventa quilos de carne e osso, a sua saúde insultante, temia a tuberculose como o pior dos males e sentia um horror mórbido a simples vista de alguém atacado dessa doença. A mera citação da palavra o arrepiava. Até mesmo quando, agarrado a máquina de compor, copiava os linguados (trabalho em que o cérebro não entrava, pelo menos para a percepção do que lia) e lhe aparecia a palavra horrível, não podia evitar um sobressalto. Isto acontecia tão frequentemente que acabou por convencer-se de que o chefe da oficina, conhecedor da sua fraqueza, lhe mandava tudo o que o' jornal publicava acerca de tuberculose. Era fatal que lhe fossem às mãos os relates das sessões médicas em que a doença era discutida. As misteriosas palavras de que tais relatos estavam repletos, palavras complicadas, de um tremebundo som a grego, e que pareciam inventadas de propósito para assustar as pessoas sensíveis, fixavam-se-lhe no cérebro como ventosas e acompanhavam-no durante horas.
Além deste impraticável projeto, a sua imaginação anémica apenas lhe sugeria ideias só aproveitáveis se vivesse em termos mais amistosos com a mulher. Já lhe tirara tanta coisa, amor, amizade, sossego, e tudo o mais que pode tomar suportável e, quantas vezes, desejável, a vida conjugal, que nada restava. Quase chegou a lamentar ter perdido tão depressa o hábito de a beijar ao entrar e sair de casa, só para o poder fazer agora.
Apesar de todos os fracassos da sua inventiva, não desistia. Obstinava-se na ideia de vingar-se de uma maneira que obrigasse a mulher a cair de joelhos diante dele, desesperada e pedindo perdão.
Um dia supôs ter achado. É verdade que uma simples reflexão lhe mostrou o absurdo da ideia, mas talvez esse mesmo absurdo o seduzisse. Ia desempenhar um papel novo nas relações com a mulher: o de ciumento. A pobre Justina, feia, quase esquelética, não suscitaria zelos ao mais feroz dos Otelos. Contudo, a imaginação de Caetano não foi capaz de produzir coisa melhor.
Enquanto preparava o lance, mostrou-se quase afável para a mulher. Foi ao ponto de acariciar o gato, o que, para o animal, foi a maior das surpresas. Comprou uma moldura nova para o retrato da filha e anunciou que estava pensando em fazer desse retrato uma ampliação.
(Ed. Caminho)
Para regressar ao AMOR PELOS LIVROS clique aqui