Sobre Antero de Quental
A minha casa, na cidade do Mondego, era conhecida como Cenáculo. Aí se reuniam os meus amigos, se lia e discutia. Derrubava-se velhas doutrinas e projectava-se outros ideais, com urgência. Eu era o símbolo e o «grão-capitão» dessa geração. Fazia parte do grupo dos cábulas que não abriam o compêndio e pouco iam às aulas. Desprezava os alunos aplicados e, para além das leituras, da escrita e das discussões acesas, dava grandes passeios e fazia demoradas caminhadas até ao Buçaco ou à Batalha. Esses passeios, bem como as minhas longas clausuras no quarto, eram as minhas musas. Mas velavam igualmente um outro traço da minha personalidade: o isolamento e a premente necessidade de silêncio, tranquilidade.
De facto, a minha pessoa, o «Príncipe da Mocidade», tanto se quedava com dormente desconsolação, como tinha explosões de cólera ou exibia franca alegria e vivacidade. Ora me isolava nas tais caminhadas ou me entregava a súbitas exaltações místicas - à meditação e à contemplação -, ora me deixava dominar pela raiva, ora me engalfinhava em tropelias com os amigos. A instabilidade de humor, uma acentuada labilidade, revelou-se cedo!
Quando bem-disposto, volta e meia, debruçado na janela, dirigia aos perplexos transeuntes bizarras questões como: «- Tens alguma ideia do Imanente?»; «Deus será de facto o imenso mar de Substância?» Imagine a reacção de quem passava...
Noutras vezes, enfiava-me na cama com um chapéu alto, que pertenceu a Herculano, destapando-me abruptamente para suscitar gargalhadas nos companheiros. Numa outra ocasião, no final de uma maratona de estudo que me entediava, decidi encarregar-me da ceia, acabando por fritar as morcelas na mesma chapa que as sardinhas. Perante as queixas dos colegas quanto ao paladar, retorqui:
«-Que importa que se misturem morcelas com sardinhas! Tudo é matéria. Ou bem que somos panteístas ou que não somos!»
Logo no primeiro ano de faculdade, recebi a condenação de oito dias de prisão. Suspeito de participar numa surra a um estudante e tendo refutado essas mesmas acusações, fui detido e intitulado, num documento de secretaria da universidade, como um aluno “Muito inferior”. De Direito aprendi muito pouco, realmente…
Findo esse primeiro ano académico, consagrei o Verão a terminar, nos Açores. A poesia A Senda do Calvário, que me tinha ocupado durante o tempo de aulas!
(…)
Não se pode reduzir o meu suicídio à loucura. Contudo, também não se pode entendê-lo como um acto livre, uma escolha filosófica, a chave de ouro para encerrar um projecto intelectual. O facto de a minha mente não ter rival, como afirmou Fernando Pessoa, não me livra da simples condição humana. Não me isentou de sofrer como os demais. Talvez, em vários momentos, tenha demonstrado a minha vontade em elevar-me, em passar do comum mortal. Mas não passei. Como nenhum passa.
Essa carta antiga que lembrei anteriormente diz bem dessa condição: «Começo a estar cansado e é forçoso decidir isto - se morro ou vivo. (…) Nem sempre se pode filosofar e moralizar: há horas más e tristes: e que não as houvesse, isto não é vida que preste.»
Nesse sentido, o meu suicídio é tão trágico e tão banal como outro qualquer. Tratando-se da tal mente ímpar, é admissível - como eu próprio fiz - contextualizar e justificar o meu desejo final num quadro teórico e filosófico. Contudo, pretender livrar-me, depois da morte, do desespero a que estava remetido, apenas para me glorificar nas letras, é negar a minha dor e a minha humanidade. Desejar branquear todo o debulhar que a doença levou por diante na minha vida, ocultar as minhas condições emocionais com receio de que nomeá-las me desqualifique, é concordar que a loucura é o lugar da exclusão. É reconhecer, cínica e paradoxalmente, que quem assim sofre não merece melhor.
(A Esfera dos Livros)
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