O JACKPOT CÓSMICO - Paul Davies

IMAGINE QUE ESTÁ A DESEMPENHAR O papel de um criador inteligente, planeando um universo adequado à vida. O universo actual funciona suficientemente bem, mas quanto poderia mudar sem estragar tudo? É possível que se pudesse livrar de alguns tipos de galáxias ou eliminar buracos negros gigantescos. Algumas estrelas pequenas e alguns planetas grandes poderiam ser supérfluos. Ao nível atómico, poderia provavelmente livrar-se de alguns elementos, mas a maioria é necessária algures na história da vida. A um nível mais fundamental, seria boa ideia deixar as coisas como estão. Ver-se livre dos electrões seria um desastre, já que a química seria impossível. Abolir os neutrões iria excluir todos os elementos tirando o hidrogénio. O inventário das partículas fundamentais não é um bom sítio para mexer. Mesmo interferir com as propriedades destas partículas seria complicado.
Dada a necessidade de manter as coisas essencialmente como estão, levanta-se a questão de saber porque consiste o universo nas coisas que vemos. Porque existem electrões, protões, neutrões e todos os outros componentes do átomo? Porque têm estas entidades as propriedades que têm? Porque têm as partículas massas e cargas específicas, e não outras? Há cinquenta anos ninguém pensava muito nestas questões. Hoje em dia, contudo, existe entre os físicos a sensação de que devíamos ser capazes de responder a estas perguntas: que a lista das partículas fundamentais e das suas propriedades não é arbitrária, deve ser explicada por uma teoria mais profunda, uma teoria que unifique todos os elementos díspares. Por vezes, com exagero considerável, dá-se o nome de «teorias de tudo» às tentativas de levar isto a cabo.
No século V a. C. foram-nos dadas explicações completas do mundo físico pelos filósofos gregos Leucipo e Demócrito, que viveram muito antes de se praticar algo de parecido com aquilo a que chamamos ciência, mas estes primeiros filósofos eram observadores e tinham prática na arte do raciocínio. Tal como nós, fizeram as grandes perguntas, por exemplo como é o universo construído, de onde veio e de que é feito. Atingiram novos patamares lógicos, matemáticos e metafísicos e acabaram por acreditar que o universo podia ser compreendido pela aplicação cuidadosa e sistemática de argumentos bem fundamentados.
Um dos problemas inquietantes sobre os quais se debruçavam muitos filósofos gregos dizia respeito à natureza da mudança. Como é que uma bolota se torna uma árvore? Como é que a água se transforma em vapor? De forma geral, como é que uma coisa se torna uma coisa diferente? A dificuldade, na forma como os Gregos viam as coisas, é que os objectos físicos têm identidades (é assim que lhes podemos dar nomes). Logo, se alguma coisa é A, como se pode tornar B sem de alguma forma já ser B desde o começo? Como é que uma coisa se pode tornar algo que não é? Alguns filósofos concluíram deste paradoxo intrigante que toda a mudança era ilusória, mas outros foram até ao extremo oposto, que nada retém uma identidade fixa, que tudo está em mudança.
(Gradiva)

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