A ORIGEM DAS ESPÉCIES DE CHARLES DARWIN – Janet Brown

Na realidade, a síntese moderna mostrou-se muito menos compatível com a crença espiritual do que qualquer teoria evolutiva teísta anterior mais flexível. A partir da década de 1950, verificou-se uma tendência crescente para a descrença por parte dos cientistas, pelo menos quando se encontravam dentro dos laboratórios. A essência da ciência moderna, como era costume afirmar-se, consistia em procurar respostas no mundo dos dados e das provas, e não em invocar o divino ou outros factores sobrenaturais.
Alguns encontraram consolação espiritual nas ideias contínuas de progresso social. O naturalismo científico podia cobrir-se com o manto de uma religião, como declarara certa vez Thomas Henry Huxley nos seus «sermões laicos» ou como tinham afirmado os filósofos William James e Charles S. Pierce. O misticismo evolutivo de O Fenómeno Humano (1959), de Pierre Teilhard de Chardin, foi também popular entre aqueles que procuravam orientação espiritual nos processos evolutivos. O mundo dos seres vivos, sugeria ele, estava encerrado numa esfera de unidade mental, chamada «noosfera». Isto antecedeu a ideia de ciberespaço em cerca de vinte anos, e Teilhard de Chardin é hoje recordado sobretudo por ter influenciado os engenheiros de Silicon Valley. De uma maneira geral, Julian Huxley mostrou-se favorável a estas perspectivas e promoveu uma filosofia de humanismo, rejeitando a ideia de um criador transcendente, mas inspirando-se no idealismo do século XIX para sublinhar a responsabilidade da raça humana em fomentar o progresso moral. Como se veio a verificar, a maioria dos biólogos estava disposta a aceitar que os seres humanos continuavam a ser especiais. A inteligência, a adaptabilidade e as características sociais humanas continuavam a ser encaradas como indicadores de um nível de desenvolvimento superior ao dos outros animais. Os humanistas consideravam que a raça humana era capaz de progredir a partir das bases biológicas no sentido de construir um mundo melhor, baseado em políticas sociais altruístas e pacifistas.
Contudo, depois da brutalidade da Segunda Guerra Mundial, parecia supérfluo comentar o lado mais violento do comportamento animal. O fundador da moderna etologia, Konrad Lorenz, revelou o comportamento agressivo inato dos animais e avisou que também o ser humano era dotado de instintos destrutivos básicos idênticos. A mensagem foi reiterada por Robert Ardrey, na sua obra sobre o «imperativo territorial», e por Desmond Morris, numa obra popular muito divulgada, O Macaco Nu (1967). A terminologia dos estudos de primatas rapidamente se espalhou da ciência para o uso público comum. Os barões da publicidade gozaram de um período particularmente inventivo com os seus slogans sobre «machos alfa». Ser humano era, ao que parecia, ser bruto.
Esta imagem da natureza humana como fundamentalmente egoísta e agressiva foi posta em causa durante as manifestações para a paz e as concentrações a favor do amor da década de 1960. Louis Leakey, o respeitado paleo-antropólogo, encorajou três mulheres cientistas a realizarem observações reais de símios no estado selvagem; foi a primeira vez que tal ocorreu segundo critérios científicos modernos. Leakey colocou Jane Goodall na Reserva do Rio Gombe, perto do lago Tanganica, na África oriental, para observar chimpanzés, e Biruté Galdikas na Samatra, para observar orangotangos. Por fim, em 1967, enviou Dian Fossey para trabalhar numa reserva de gorilas no Ruanda. Estes estudos de símios no seu habitat natural mostravam que eles eram, em geral, orientados para a família, leais aos seus grupos e não agressivos, a menos que estivessem assustados. Em resultado destes estudos verificou-se uma predisposição renovada para levar a sério uma relação mental e emocional mais estreita entre símios e seres humanos.
(Gradiva)

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