Ramiro Calle em O HOMEM QUE PROCURAVA O SENTIDO DA VIDA

Augusto e o doutor apertaram as mãos efusivamente, olhando-se fixamente nos olhos enquanto eu os observava. O recém-chegado não perdeu a seriedade da sua expressão, mas no seu olhar profundo apareceu um visível vislumbre de cordialidade. Depois, espontaneamente, antes que Augusto nos tivesse apresentado, apertou-me vigorosamente a mão, murmurando «muito gosto», e depois pediu-nos que nos sentássemos e fez o mesmo.
Ficámos os três em silêncio, rodeados pelo sussurro contínuo dos que conversavam animadamente. Depois desse silêncio, o doutor disse, dirigindo-se a Augusto:
- Obrigado por se ter lembrado de mim e por me ter chamado.
- Como não me havia de lembrar, doutor? Mantivemos algumas das
conversas mais iluminadoras e inspiradoras da minha vida. Foi muito generoso perdendo o seu precioso tempo comigo.
E amistosamente, Augusto deixou uma das mãos sobre um dos braços do doutor, que nunca perdeu a sobriedade, mas cuja presença, que parecia encher toda a sala, era muito agradável. O rosto era anguloso, com maçãs do rosto direitas e nele destacavam-se os seus negros olhos bengaleses, de olhar muito penetrante.
- Como prosseguem as suas investigações, doutor? - perguntou Augusto.
- Não param - respondeu pausadamente -, não param. Enquanto um
investigador vive, a investigação tem de prosseguir, seja científica, espiritual ou de outra ordem. O investigador é como um sabujo que não para de perseguir a sua presa.
- Tem toda a razão - concordei. - Como psicólogo das profundezas que sou, cada dia me apercebo mais de que é preciso continuar a investigar sem tréguas.
- Esse é o dom da investigação - interveio Augusto -, que não tem fim. Como vão as suas indagações sobre o que metaforicamente chama o «buraco negro do cérebro»?
Esboçou um sorriso comedido e disse:
- Que deve distinguir um ser humano? Um entendimento de ordem
superior, mas a maior parte dos homens carece dele. Porquê?
Guardámos silêncio.
(Editora A Esfera dos Livros)

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