CRIAR UM MUNDO SEM POBREZA – Muhammad Yunus

Fomos contra os métodos tradicionais de luta contra a pobreza ao começarmos por conceder empréstimos sem dar qualquer formação prévia às pessoas pobres.
Por que razão começámos por dar dinheiro?
Porque estou firmemente convencido de que todos os seres humanos possuem uma capacidade inata. Chamo a isso capacidade de sobrevivência. O facto de os pobres estarem vivos é uma prova evidente das suas capacidades. Não precisam que lhes ensinemos a sobreviver, isso já sabem. Portanto, em vez de se perder tempo a ensinar-lhes novas competências, preferimos maximizar aquelas que eles já tinham. Dar aos pobres acesso ao crédito permite-lhes pôr em prática imediatamente as competências que já possuem — tecer, descascar arroz ou conduzir um riquexó. O dinheiro que ganham torna-se, pois, um instrumento, uma chave que dá acesso a um domínio de outras competências, uma chave para explorar o próprio potencial de cada um.
Os decisores governamentais, muitos consultores internacionais e ONGs iniciam o trabalho de luta contra a pobreza com programas de formação muito elaborados. Isto pode explicar-se de três formas: primeiro, partem do princípio de que as pessoas são pobres porque lhes falta competências. Se puderem adquirir uma competência, já não continuarão pobres. Em segundo lugar, começam pela formação porque isso perpetua os seus próprios interesses — mais postos de trabalho com grande orçamento para eles sem a responsabilidade de terem de apresentar qualquer resultado concreto. Pode mostrar-se que se está a fazer uma coisa muito importante sem de facto, fazer nada. Em terceiro lugar, não sabem o que mais pode ser feito.
(…)
Mas se olharmos para o mundo real, não podemos deixar de ver que os pobres são pobres não porque lhes falte a formação ou porque sejam analfabetos, são pobres porque não podem conservar os rendimentos do seu trabalho.

(Nota de GM: Neste momento apetecia-me bater palmas)

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